Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

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“Citizen Kane”, por Orson Welles

Destaque para a exploração expressiva da profundidade de campo, possibilitado por avanços tecnológicos como a nova câmara, mais pequena e portátil, novos equipamentos de iluminação mais potentes e película com maior fotossensibilidade (Eastman Super XX).

É notável o uso inédito da Fotografia que Welles empregou no filme, introduzindo no cinema sonoro artifícios como planos muito angulares sobre a figura protagonista, contrapicados e picados, mitificando-a ou diminuindo-a. O uso de ângulos baixos destaca o protagonista, simultaneamente sugerindo clausura, solidão. A iluminação usa de grandes contrastes de claro-escuro – Grey Toland foi o director de fotografia.

A narrativa desenrola-se, e a crescente distância do protagonista ao mundo é explicitada pela progressivamente maior distância no enquadramento de outras personagens.

Na profundidade de campo, o espaço é por vezes distorcido, espelhando o estado psicológico do protagonista.

É recorrente o recurso a transições “fade” e “crossfade”.

O raccord sonoro não é limitado pela lógica narrativa, mas usado a par com a banda sonora num registo mais rico, na medida em que diálogos se sobrepõem  e encavalgam entre cenas diferentes – overlapping sound montage/montagem de sobreposição sonora.

A narrativa começa a desenvolver-se aquando da morte do protagonista, cuja vida será revivida cronologicamente através de analepses despontadas por conhecidos seus. No plano inicial de Xanadu, uma janela iluminada escurece – metáfora visual para a morte de Kane, que sussurra “Rosebud” antes de falecer, deixando cair um globo de neve (um símbolo diegético decifrado pela audiência posteriormente). Segue-se a sequência “News of the March”, reportagem da vida de Kane, que sumariamente apresenta a narrativa da vida deste, um personagem polémico, simultaneamente admirado e repudiado.

A narrativa efectiva do filme revolve em torno das cinco entrevistas/testemunhos que um jornalista reúne com o propósito de decifrar o significado da última palavra de Kane.

No final, revista a vida de Kane, os investigadores não têm sucesso, sendo mostrada no enquadramento a vastidão de bens terrenos que este colectara em vida, metaforicamente espelhando as peças do puzzle da sua mulher; partes constituintes de algo fútil. Um dos investigadores comenta algo como “uma palavra não é suficiente para definir a vida dum homem”; um comentário irónico para a audiência, que compreende a palavra “Rosebud” – esta traduz a infância de que Kane abdicou para seguir promessas de fortuna material, decisão que viria a ressentir.

A montagem é elíptica, na medida em que o último plano é o inicial, mostrando Xanadu.


Cuidados com a Iluminação

Quando uma cena está repleta de luz, será necessário, para uma exposição correcta, usar uma abertura de diafragma maior (fechando-o). Isto resultará numa maior profundidade de campo, e no foco do fundo e do primeiro plano. Para corrigir estas situações, existem soluções como filtros neutros que diminuem a incidência de luz, e reflectores brilhantes ou absorvedores, para redireccionar a luz.

Num cenário interior, luzes HMI podem criar uma Temperatura de Cor semelhante à da luz solar, concorrendo com fontes de luz natural como janelas. Outra solução pode ser a colocação de gelatinas que reduzem a luz de aberturas, filtrando certa radiação, permitindo não só a manipulação da intensidade luminosa mas também correcções cromáticas da temperatura luminosa.

Ainda sobre espaços interiores, lâmpadas fluorescentes não exibem o espectro cromático inteiro, mas isto pode ser corrigido com filtros verdes ou rosas.

Para a própria câmara, existe o equipamento “matte box”, uma caixa de filtros colocada na objectiva.


Iluminação de três pontos

A preocupação com a iluminação da cena advém de se tentar manipular o ambiente subjectivo que a cena transmite. Determinado jogo de luz imbui na cena diferentes sentimentos, que podem completar o seu sentido. A Iluminação de três pontos conjuga três fontes de luz com propósitos diferentes para da melhor forma garantir uma imagem de boa qualidade.

Key-Light” ou Luz-Chave

Esta é a luz principal dos personagens. É a chamada “luz de personalidade”, servindo de foco principal sobre os protagonistas para, com sombras realçadas, lhes definir traços da volumetria mais característicos, como contornos faciais. A Key-Light deve ser posicionada ligeiramente de lado (a cerca de 30 graus da frente do personagem).

Fill-Light” ou Luz de Preenchimento

Esta é uma luz suave que deverá agir como a luz natural age sobre os demais figurinos ou cenário na imagem, além das personagens. A “Key-Light” cria sombras muito definidas, e a “Fill-Light” serve, portanto, para suavizar este contraste, sem o suprimir. O seu posicionamento deve ser lateralmente oposto ao da “Key-Light”, gerando 90% da intensidade luminosa desta – Key-Light na esquerda, Fill-Light na direita e vice-versa. Em muitas situações, menos ideais, esta poderá ser a única fonte de luz disponível.

Back-Light” ou Luz Traseira

Esta luz é tida por muitos profissionais como obsoleta, na medida em que haja algum contraste suficiente entre cenários e protagonistas. Contudo, esta luz não só o faz, como dá mesmo destaque aos contornos dos personagens, que são valorizados em relação ao demais na imagem. Jogos de luz e sombra podem ser uma mais valia na projecção bi-dimensional, quando se tenta a ilusão de profundidade. Também, em situações com cenários gráficos ou de reportagem, será pertinente destacar do fundo a personagem; esta luz garante uma boa relação entre o fundo e os volume e contraste do personagem.

Esta luz pode ser complementada com “Background Light“, dirigida directamente ao fundo, para garantir a iluminação deste.

Deve haver sensibilidade para nunca arruinar os princípios da composição: a luz de fundos ou preenchimento nunca poderá ser de igual ou superior intensidade à luz-chave do personagem, que é o fulcral da imagem.