Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

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Naturalismo e Realismo

Este é o século da Laicização do Pensamento, racional e pragmático.

Positivismo – primado da experiência empírica na construção do conhecimento

Cientismo – visão sobre a ciência como resposta messiânica aos desafios do Homem

A atitude que se impõe é o Racionalismo Positivista, teorizado por Comte e Kant, e por que só são tomadas por verdades científicas as que advêm da razão aliada à experiência – uma apologia do racionalismo e empirismo. Isto a par do Socialismo de Proudhon, que defendia um compromisso humanista de luta pela igualdade social, resposta aos emergentes problemas do proletariado.

No tumulto das revoluções científicas e filosóficas, a par das mudanças sociais e económicas, também a arte se projecta para um maior compromisso com a realidade objectiva. A desumanização e laicização da sociedade, consequências da industrialização e capitalismo que se instauraram

NATURALISMO

Corrente da 2ª metade do século XIX, por que a Arte devia representar objectivamente o visível quotidiano e natural. As temáticas e tratamento sentimental românticos são descartados.

Estes artistas levam o seu trabalho para o exterior dos estúdios e a proximidade ao referente natural impele os artistas a atentarem a pormenores de luz, tom, texturas. Privilegiava-se a representação paisagista.

A Escola de Barbizon é a iniciadora do movimento; compromete-se a pintar a Natureza como esta se apresenta. Nesta aldeia francesa, os artistas se viraram directamente para a Natureza, fugindo à agitação urbana e rigor académico para aqui explorarem uma expressão naturalista e se libertarem do fantástico, religioso ou histórico.

Rousseau, Daubigny e Corot, Boudin e Whistler são dos mais emblemáticos artistas desta corrente.

REALISMO

Corrente estética (pictórica e literária) que se afirmava como anti-académica, surgida em França, entre 1848 e 70, encontrando inspiração no mundo coevo, na realidade e contexto social concretos – sua preocupação máxima era a tradução objectiva da realidade. Trata-se de uma resposta ao exacerbado sentimentalismo fantasista romântico – “o Romantismo é a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do Homem”, escreveu Eça de Queiroz. O Romantismo fora idealista e medievalesco, enquanto o Realismo era fatalista quanto ao presente.

Privilegiava-se a representação crítica de motivos sociais, servindo-se de imagens rurais, de cenas alusivas ao quotidiano urbano ou campestre da classe trabalhadora, e de retratos e auto-retratos.

Esta pintura liga-se profundamente a conflitos sociais, como a reinvidicação do proletariado de melhores condições de vida, a afirmação socialista e crises económicas; representando-se labores de personagens comuns, anónimos.

Recuperam-se técnicas clássicas rigorosas de perspectiva, volumetria, gradação de tons, tratamento luminoso e de texturação, e representação anatómica metódica.

Courbet é o iniciador e grande teorizador do Realismo Pictórico. De convicções socialistas, este foi apologista de se pintar o sensível e tangível, defendendo a primazia da observação directa natural em detrimento do sonho e fantasia, afirmando “não posso pintar um anjo porque nunca vi nenhum”. Outros realistas foram Leibl e Fattori, Daumier e Millet. Deste último é a autoria da obra “As Respigadoras do Trigo“, talvez a obra mais emblemática do movimento. Esta compõe-se de uma cena do quotidiano rural, com protagonistas anónimas de rostos virados, que funcionam como símbolos do colectivo. É uma visão objectiva e rigorosa da realidade (camponesas trabalhando no seio da Natureza austera, humildes e resignadas) – uma obra ideológica, de convicções socialistas, alertando para a classe trabalhadora com autenticidade em detrimento de sentimentalismo. Trata-se de uma composição equilibrada, com as principais figuras em primeiro plano e dotadas de bom tratamento volumétrico (reunindo, assim, as características técnico-formais e conceptuais que caracterizam o movimento).

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Impressionismo

Esta tendência artística europeia (acima de tudo, parisiense) do final do século XIX propõe-se a criar pintura mais intuitiva e espôntanea, visando captar a realidade sensorial, explorando fenómenos luminosos e atmosferas cambiantes naturais – isto devido à atitude positivista que progressivamente se afirmava, por que se prefere os sentidos aos sentimentos, e devido à afirmação da Fotografia como meio técnico de representação rigorosa, que desafia a pintura a procurar novas expressões que escapam ao registo somente naturalista.

Encontra as suas principais influências em Turner, em Courbet, na Escola de Barbizon e na estamparia japonesa (esta caracterizada por uma concepção livre da forma e da perspectiva, linear, de cores claras e puras, e de temáticas populares).

Este movimento reprovava veementemente a arte académica e o trabalho em estúdio. A pintura impressionista exclui preparações prévias e aperfeiçoamentos finais. A tinta preparada previamente e disponível em tubos de zinco portáteis garantiu aos artistas mobilidade, permitindo que trabalhassem em locais naturais.

Descobertas científicas no domínio do comportamento da luz e da cor (como as levadas a cabo por Newton ou Young ou Chevreul) permitem que se enuncie a Teoria da Cor, de que partem noções rigorosas de como se operam contrastes cromáticos – conhecimento basilar para os artistas impressionistas. Os trabalhos impressionistas dão grande ênfase à luz, e são as cores que constroem as formas, em pinceladas rápidas e curtas, justapostas em função da síntese aditiva de cores complementares, que criavam assim a gradação tonal. Disto resultava o aspecto inacabado e rugoso dos quadros, com cores muito fortes e volumetria pouco definida, para captar a essência em detrimento do detalhe

Os temas, que não passam de pretextos para exploração de potencialidades luminosas, giram em torno da vida quotidiana burguesa, desde as festas aos demais convívios, no campo ou na cidade.

Manet é o grande precursor deste movimento, que se afirma com o trabalho de Monet, Renoir, Pissarro e Degas. É de “Impression Soleil Levant”, por Monet, que o movimento recebe o seu nome, e, no fundo, é precisamente esse o seu objectivo: impressionar; representar as impressões imediatas do artista ante uma variação de luz, um qualquer evento, sempre num estudo fugaz.


De Revolutionibus Orbium Coelestium

Obra escrita a 1543 por Nicolaus Copernicus, erudito aclético polaco, sabedor de advocacia, matemática, estratégia, medicina…

Foi em “De Revolutionibus Orbium Coelestium” que Copernicus enunciou, matematica e cientificamente, a teoria heliocêntrica, segundo a qual o Sol é o centro do cosmos, e sobre o qual a Terra gira, bem como outros corpos celestiais. Copernicus afirma isto quando se cria no geocentrismo, segundo o qual a Terra era o centro imóvel do universo, em volta da qual planetas e o Sol giravam.

Por anos investigou com instrumentos pouco capazes para tamanha pesquisa. Fez observação metódica empírica, e análise rigorosa às teses clássicas que suportavam e se opunham ao geocentrismo – respectivamente Pitágoras, Aristóteles, Platão, Ptolomeu, Eudóxio, Apolónio; e Aristarco de Samos, Filolau, Heráclides, Rhadir de Sevilha, Nicolaus de Cusa, Feuerbach, Muller.

Com complexas demonstrações matemáticas pormenorizadas, comprova que o Sol é uma estrela estática, e astros como planetas giram em movimento de rotação e translação. Assim, o movimento que os astros fazem no firmamento é apenas aparente, devido ao próprio movimento da Terra.

Foi uma afirmação polémica, no seu tempo, embora apenas entre a comunidade erudita, único auditório da tese. Até contra dogmas bíblicos esta tese se insurgia, ensinamentos do catecismo antigos. O seu trabalho foi reprovado por quase trezentos anos, ainda que houvesse quem continuasse a estudá-lo, mesmo provadas posteriormente imprecisões. Foi na obra de Copernicus que homens como Kepler, Galileo Galilei, Giordano Bruno ou Tycho Brahe.


Imprensa

O Humanismo foi a expressão literária dos valores intelectuais renascentistas. Escritores, filósofos e professores traduziam dos originais gregos e latinos, rejeitando as falaciosas versões adulteradas medievais. Renovaram o fascínio pelos escritos clássicos, e promoveram o novo espírito reflectivo, precedido por Dante, Petrarca e Boccaccio.

Eruditos procuraram nas bibliotecas antigas, em ruínas, em busca de originais para preservar e copiar, e também imitar e recriar critica e criativamente. A par da valorização do grego e do latim, preferia-se igualmente a língua materna, nacional, e grandes exemplos desta literatura foram Shakespeare ou Camões. Tudo isto despontou a valorização da experiência pessoal, do espírito crítico, analítico, racional, antropocêntrico, humanista, enfim, a consciência da modernidade.

Thomas More, Eramus, Maquiavel, Rabelais e Damião de Góis foram alguns dos nomes mais influentes da literatura humanista. Estetas, optimistas, amantes da vida, como os clássicos, os humanistas não deixaram de acreditar em Deus quando acreditaram no Homem, e faziam novas pontes entre a Escritura e a interpretação humanista.

E, precisamente nesta época, a difusão de ideias, a comunicação de informação, é revolucionada pelo surgimento da Imprensa, graças a Guttenberg, que reinventa a tipografia, na Alemanha, no século XV. A novidade da Imprensa rapidamente tomou a Europa inteira. Guttenberg terá importado a técnica da Imprensa, mas a melhorado a um nível completamente diferente, com a criação dos tipos metálicos reutilizáveis, com as experiências com diversas misturas de tintas, com a adopção da prensa vinícola e com o uso do suporte do papel, em detrimento do pergaminho – permite-se a maior edição de livros, que os populariza, abrangendo maior público para os seus conteúdos.

Até então, as edições eram lentas, manufacturadas principalmente por monásticos, e cingia-se principalmente a livros religiosos ou romances de cavalaria. Com a nova facilidade de edição, surgem livros de viagens, reedições de clássicos, de medicina ou direito, reflexões humanistas.

A vida cultural progride imensamente com este contributo, sendo emulsionada a divulgação de ideias, correntes culturais, estudos, até as próprias mentalidades. Ainda assim, o livro permaneceu um artigo de luxo explorado por comerciantes especializados.


“A Queda dum Anjo”, de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, em Lisboa. Na sua adolescência formou-se em literatura clássica e eclesiástica, em contacto com a vida transmontana. Casa, em 1841, aos 16 anos, mas o casamento durou apenas um ano, e ingressou na Universidade. Desde então, já começa os seus problemas com autoridades, sendo várias vezes perseguido e espancado por publicações que faz em jornais. Tenta, no Porto, o curso de Medicina, e, depois, Direito. No Porto, adopta uma vida boémia, dedicando-se, entretanto, ao jornalismo. É preso pelo seu romance com Ana Plácido, mulher casada, mas depois é perdoado. Passam a viver os dois juntos, tendo Camilo 38 anos, agora. Em 1885, recebe o título de Visconde de Correia Botelho, e casa com Ana Plácido em 1888. Vive com dificuldades financeiras, instabilidade emocional e progressiva cegueira causada pela sífilis. Quando se tornou certo de que ele nunca recuperaria a visão, suicidou-se a 1 de Junho de 1890. No todo, a sua carreira literária rendeu-lhe 260 obras, entre romances, ensaios, traduções…

O tema de “A Queda dum Anjo” é a corrupção política, um tema recorrente no seu trabalho, como romancista ou jornalista, criticando a decadência da moral da sociedade portuguesa do século XIX e dos seus governantes. Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda nasceu a 1815, com 44 anos no momento da acção , na aldeia de Caçarelhos, e é um erudito mergulhado constantemente nos seus clássicos de História, Cultura, Música, Vinhos, Filosofia. É um pequeno deputado do Minho, enviado como representante da região para a Assembleia, em Lisboa. É um defensor ferrenho das suas convicções “antiquadas” sobre a moral, a verdade e a justiça, e a sua cruzada eterna contra a depravação e a corrupção acaba esquecida, quando ele próprio é seduzido pelo luxo e prazer que a capital pode oferecer. Acaba por se envolver num romance extra-conjugal com uma prima muito distante. O livro é um dos mais conhecidos de Camilo Castelo Branco, um exemplo do seu estilo romântico, ainda que satírico.

Além de Calisto de Barbuda, não há muitas mais personagens com que o leitor ganhe maior contacto. O próprio Calisto é um erudito conservador, ligado ao passado, às lições da História, às antigas noções de moralidade e bondade. Vive para a sua obsessão literária, chegando a passar a noite de núpcias a ler Viagem à Terra Santa, enquanto a mulher limpava o tecto do quarto. É um intelectual, ao início, muito convicto nas suas opiniões contra os luxos a que se prestam os restantes deputados e membros da elite ulissiponense/lisbonense. É um pouco ingénuo, como quando chegou a Lisboa pela primeira vez, bebendo das fontes que os seus clássico diziam possuir poderes mirabolantes – e quando bebeu das fontes, a garganta e o estômago arderam por quinze dias. É um homem de meia-idade, muito magro, de cara ossuda e barbeada, postura digna. Já o seu companheiro de Lisboa, o abade de Estevões, é um pouco mais boémio que o seu amigo Calisto, amando a comida e a recriação musical. É quem guia Calisto por Lisboa, afastando-o dos conselhos desactualizados dos clássicos do minhoto. É um apoiante da antiga moral, tal como Calisto, mas gosta de apreciar comida e canções, pecando com gula e luxúria enquanto membro do clero.

O romance passa-se entre o Minho, terra natal de Calisto, e Lisboa, a sua Babilónia, em 1859. O principal espaço da obra é Lisboa do século XIX, uma Lisboa poluída, entregue a um povo desgovernado e deputados desleixados, caprichosos e corruptos. É uma cidade soturna, despida da glória antiga das naus dos Descobrimentos, como diria o próprio Calisto, e pouca mais informação Camilo Castelo Branco, que é narrador heterodiegético na obra, dá sobre as paisagens e locais, deixando à dedução do leitor; cria, sim, algumas passagens mais pormenorizadas esporadicamente, principalmente relacionadas com as origens do homem-anjo minhoto.

É uma obra notável, merecedora do crédito que recebe da crítica, no geral. Camilo Castelo Branco funde a realidade e a ficção numa perfeição quase inigualável, chegando, para esse efeito, a incluir-se como narrador heterodiegético da obra e a revelar o único desgosto que um livro alguma vez deu a Calisto – uma das suas próprias obras, que Calisto terá enchido de “galicismos e manchas de toda a casta”, plenamente desiludido. A obra não oferece grandes descrições, e quase expõe as sessões parlamentares da Assembleia como se duma peça dramática se tratassem. É uma grande crítica de Camilo à sociedade, tipicamente sua, mas que ainda se poderá aplicar aos nossos dias, infelizmente. É uma obra em que a Assembleia Nacional é exposta em todos os seus aspectos negativos; uma obra que tenta mostrar como devemos manter-nos fiéis às nossas convicções pessoais e lutar por elas e pela dignidade individual e colectiva, não deixando que humilhem as instituições governamentais e o povo que elas representam.


“Contos”, de Eça de Queiroz

A obra incluí, de entre outros contos, No MoinhoeSingularidades de uma Rapariga Loira, de Eça de Queiroz

Eça de Queiroz foi não só um importante membro da alta sociedade do século XIX como político, mas também como escritor, sendo considerado dos mais importantes Realistas e Romancistas da Literatura Europeia. Eça de Queiroz nunca editou os seus contos, vindo, mais tarde, o seu grande amigo Luís Magalhães reunir os textos e compilá-los num só volume.

Sobre os contos de Eça de Queiroz, sabe-se que os escrevia esporadicamente, normalmente com base em pequenos detalhes da sua vida quotidiana ou das viagens que fazia – em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, o autor foi inspirado por um leque chinês que adquiriu numa viagem a Macau, cidade onde também adquiriu um manto que o inspirou a escreveu “O Mandarim”. Eça de Queiroz deixou um vasto espólio de anotações do Egipto, Ceuta, Macau, França, bem como diários verídicos de situações da realidade que inspiravam os seus romances – sobre o realismo nos seus trabalhos, chegou a haver um grande alarido em Leiria, no tempo do autor, para descobrir quem eram os homólogos na vida real das personagens de “O Crime do Padre Amaro”.

Ambos os contos (“No Moinho” e “Singularidades de uma Rapariga Loira”), à boa maneira de Eça de Queiroz, retratam “pequenos grandes escândalos” da sociedade da sua altura – amores proibidos em ambos. “No Moinho” é assim intitulado por o ponto alto do conto, quando o amor proibido das personagens principais é consumado, se passar no moinho da localidade em que tudo acontece. “Singularidades de uma Rapariga Loira” refere-se às qualidades “singulares” da rapariga por que o personagem principal se apaixona.

No Moinho” segue a história da mulher-modelo, Dona Maria da Piedade, uma belíssima jovem presa a um casamento infeliz com um homem velho e três filhos doentes. Todos os dias as pessoas da vila a vêem bordar todas as tardes com a mesma cara abatida, e veneram a devoção que Maria tem ao seu matrimónio. Porém, um dia, o primo do seu marido, Adrião, vem à vila, e Maria da piedade vê-se presa num conflito entre o dever e os sentimentos, deixando-se vencer pelo amor refugiada no velho moinho com o jovem Adrião.

Singularidades de uma Rapariga Loira” é o relato de Macário a um homem que conhece numa estalagem. Macário conta-lhe como a sua vida mudou por completo após ter encontrado uma rapariga da varanda do seu escritório de “guarda-livros”, de contabilista. Macário conhece a rapariga em vários encontros, e passa a querer casar-se com ela, mas o casamento não é permitido pelo tio para quem trabalha em Lisboa, abandonando ele o seu emprego e arranjando e perdendo fortunas em múltiplos negócios, tudo para que pudesse eventualmente garantir o sustento dele e de Luísa, para se casarem de vez. Entretanto, o seu tio perdoa-o e volta a acolhê-lo, mas, no fim, Macário e Luísa voltam a ficar separados.

O narrador, em “No Moinho”, é Heterodiegético, não participando na história, mas já em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, o narrador é um qualquer estranho a que Macário se dirige para relatar a sua história, podendo até se entender esse estranho como o próprio autor, Eça de Queiroz, que, nesse caso, será uma personagem secundária do conto, logo Homodiegético. Em ambos os casos, o narrador é Observador, de focalização interna, adoptando o ponto de vista da personagem principal, Maria da Piedade ou Macário; e Subjectivo, apresentando comentários e anotações tipicamente queirosianos, com inúmeras alusões a aspectos religiosos, políticos ou de qualquer outra natureza social que envolve o leitor num profundo emaranhado de informações fictícias e reais – o que sustenta as ficções de Eça de Queiroz nos limiares da realidade.

As personagens principais dos dois contos, por norma, são modeladas, sofrendo mudanças que lhes causam as suas histórias de vida, mas sempre num ciclo de eventos que as leva de novo à sua origem – D. Maria da Piedade passa de modelo de virtude a mulher sem moral, mas continuando a servir a família; Macário passa de apaixonado a traído, mas começando e terminando o seu conto sob a alçada do tio. Das demais personagens que surgem nada mais se sabe além do essencial para o desenvolvimento do enredo, logo, personagens Planas, como o joalheiro, ou, por vezes, personagens-Tipo, como o tabelião da Rua dos Calafates – o típico velho erudito ocupado com as festas e entreténs com os seus iguais abastados, que acabavam guardando para si a música erudita, a literatura, os teatros e óperas e outras extravagâncias culturais privadas – ambos personagens de “Singularidades de uma Rapariga Loira”. A caracterização das várias personagens passa, normalmente, pela primeira descrição genérica de características reconhecidas por outros na imagem que a personagem dá – Heterocaracterização. Uma mais aprofundada caracterização é apresentada ao longo do conto, transmitida pelas acções que a personagem toma – Caracterização Indirecta.

A acção em si, dos dois contos, concentra-se nas vivências conturbadas de membros da burguesia, de proprietários ricos que comporiam a nata, a elite da alta sociedade portuguesa, mas que ainda assim se envolvem nos labirintos mundanos das tramas amorosas.

A estrutura na intriga é extraordinária apenas em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, havendo o encaixe de uma narrativa (a dos eventos de Macário) numa outra (o encontro do narrador com Macário).

Em “No Moinho”, o Espaço e o Tempo não são especificados, apenas se referindo que o conto se passa numa vila rural, talvez no tempo de vida do autor. Já em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, várias referencias espaciais são feitas, já que o narrador encontra Macário numa estalagem no Minho, o próprio Macário tendo vindo de Vila Real e trabalhado com o tio em Lisboa, em 1823 ou 33 – logo, as referências temporais, mesmo algo vagas, existem.

Em ambos os trabalhos, as marcas do estilo queirosiano surgem, desde o realismo das histórias às figuras de estilo , como a hipálage (“… seus cabelos violentos e ásperos…”) ou a sinestesia (“…frescura da verdura…”), a adjectivação dupla ou até tripla (“…movimento sôfrego apaixonado…”), as alusões que faz (“Era um recanto de natureza, digno de Corot…”) entre outras.

Eça de Queiroz deixou uma grande obra literária que o tornou no grande vulto da cultura portuguesa e da literatura europeia que é. Foi um erudito, um político activo e uma personalidade cultural de grande respeito entre demais do Portugal e da Europa do seu tempo (Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Émile Zola…). Cosmopolita, cultivava amizades e contactos com inúmeros homens e mulheres de cultura, sendo interessado por pintura e música, ciências, política, misticismo, religião. Viajou por muitos locais e participou em grandes eventos, como a inauguração do Canal do Suez. Coleccionava itens e registava detalhes de todas as suas excursões e reuniões em pequenos cartões, que ainda podem ser vistos na sua casa-museu, em Torges – pormenores que o inspiravam nos seus trabalhos escritos, que produzia meramente por prazer e criatividade, ao contrario, por exemplo, do seu contemporâneo Camilo Castelo Branco, que vivia dos seus vastos escritos.


“Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett

Almeida Garrett foi uma personalidade portuguesa romântica, do século XIX. Foi político, escritor, e o introdutor do movimento do Romantismo em Portugal. Neste tempo, caem de vez os governos déspotas, dando lugar ao liberalismo político, em sociedades inconformistas e culturas com repúdio das limitações – enfatizam-se o lirismo, o nacionalismo utópico, o sonho exacerbado, o escapismo; depois, o pessimismo, o naturalismo, a religiosidade; e por fim, o realismo e a ironia enfatizada.

Uma dessas correntes românticas, o patriotismo utópico, ligava os românticos às suas origens nacionais tradicionais. Esse é o caso da obra “Frei Luís de Sousa“, passada no período da perda da independência portuguesa para os reis espanhóis após o desastre da Batalha de Alcácer Quibir, em que o rei D. Sebastião se perdeu, sem deixar herdeiro ao trono – é nesse período de domínio estrangeiro, de união ibérica, que a peça dramática “Frei Luís de Sousa” se passa.

O primeiro Acto é passado no palácio de Manuel Coutinho, em Almada, no quarto luxuoso da viúva Madalena, jovem e inexperiente, lendo “Os Lusíadas” sozinha, refugiada temporariamente do luto, do medo, da solidão constantes. Esta reflecte sozinha até que vem até ela Telmo, o aio do seu primeiro marido, João, desaparecido em Alcácer Quibir. Só depois de sete anos do desaparecimento do marido é que Madalena voltou a casar. Desposou Manuel Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem teve uma filha, Maria, com treze anos pela altura da peça. Maria é doente e frágil, deixada a ler protegida por Telmo, que a criou desde pequena. Quando Manuel chega ao palácio de Lisboa, chega também a nova de que os governadores arranjados por Madrid para Portugal estão a chegar – pretendem hospedar-se no palácio de Manuel até os surtos de peste cessarem. Num acesso de exacerbado patriotismo, Manuel leva todas as pessoas e queima a própria residência.

O segundo Acto é passado na residência do primeiro marido de Madalena, para onde a família foge em busca de abrigo. Telmo, forçado em juramento a não falar mais de João de Portugal, seu aio antigo, mente quando Maria aponta para um retrato do cavaleiro. Frei Jorge, irmão de Manuel, conseguiu um perdão do arcebispo para a afronta de Manuel para com os governadores. Madalena está muito inquieta, sentindo a sombra do marido sob aquele tecto. Pouco depois, surge um estranho romeiro, que afirma saber de novas de João de Portugal, que este está vivo. A desgraça abate-se sob a família de Madalena, que é agora uma adúltera com uma filha bastarda e um amante desonrado.

No terceiro Acto, passado na capela do palácio de João de Portugal, Maria adoeceu bastante. O romeiro revela ser o próprio João de Portugal, mas apenas ao seu servo Telmo, e ordena-lhe que o desacredite, para tentar evitar a desgraça de Madalena, Maria e Manuel. João vai partir de vez, mas Manuel e Madalena já se preparam para receber os votos, depois de informarem Maria. Quando estão prestes a receber os hábitos religiosos, Maria interrompe a cerimónia para tentar desesperadamente que se esqueça a verdade. Por fim, sem forças, cai morta em palco, ao jeito tipicamente romântico.

Toda a peça se enche de presságios, alusões, num grande historicismo de Garrett, e a morte de Maria, o sentimentalismo de Madalena, o patriotismo de Manuel – isto é o Romantismo traduzido na construção das personagens e da trama narrativa da peça.