Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Sétima Arte

“Robin Hood” (2010), de Ridley Scott

A Inglaterra do século XII é arrasada pela desgastante Cruzada do ausente rei Richard Lionheart, o Coração de Leão. A sua prolongada campanha infrutífera na Terra Santa e o seu resgate do cativeiro europeu custaram aos ingleses feudais quase toda a sua riqueza. Aquando da sua morte, num cerco em que tentava saquear dinheiro para alimentar as suas forças militares, uma pequena comitiva é encarregada de levar a coroa a Inglaterra. Esta comitiva é surpreendida por franceses, emboscados por sua vez por um pequeno bando de desertores ingleses. Desses, figura Robin Longstride, que se fará passar, em Inglaterra, pelo retornado Robert Loxley. O poder em Inglaterra é legado ao irmão de Richard, John, um príncipe fraco que rodeia de conspiradores de Philippe, rei da França. Este planeia dividir os partidários de John e os barões do norte para invadir um país em guerra civil. Contudo, Robin e os barões do norte conseguem uma união frágil com John, a troco de garantias liberais individuais. No fim, John não cumprirá a sua palavra e recuar-se-á a permitir que tal documento seja oficializado – tratar-se-á, mais tarde, da Magna Carta.

Este filme explora, como muitos outros, o legendário da figura de Robin Hood, sugerindo ainda assim um enredo fresco, dinâmico e empolgante. Com o selo de Ridley Scott, balança unicamente uma vertente artística e comercial na aposta cinematográfica. O filme prima pela montagem ritmada, fluída, e pela fotografia harmoniosa e apelativa. Reúne um elenco premiado, como Cate Blanchett, a actriz australiana, e estreou na abertura do Festival de Cannes.

O papel lírico e dramático da banda sonora e a ênfase na sonoplastia por vezes fantástica confere um sabor místico mas ainda assim verosímil à obra.

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“Pare, escute, olhe”

É um documentário premiado, por exemplo, pelo festival DOC de Lisboa, que expõe o ridículo de uma classe política hipócrita e cobiçosa e a consequente condenação de populações ignorantes do poder que dão a representantes corruptos.

Retrata a terrível ambição de autarcas e representantes superiores, interesses financeiros de construtoras e concessionárias energéticas contra pequenas populações abandonadas à sua sorte pelo poder central, de uma região sub-desenvolvida esquecida. Lá, um fluxo vital é a centenária Linha do Tua, ameaçada pela construção de barragens.

É um trabalho de fotografia excelente, uma montagem cuidada e muito criativa e própria para o filme. Foi feito por Jorge Pelicano, autor de “Ainda há pastores?”, depois de ter sido repórter de imagem da televisiva SIC. Trabalhou neste “Pare, escute, olhe” por dois anos, reunindo vários colaboradores de pesquisa, captura de imagem, acção cívica…

É um filme muito interessante, de um género pouco explorado em Portugal, o documentário, mas que além da vertente patente do civismo, da mobilização, também é em si mesmo muito artístico.

http://savetua.blogspot.com/


“How to train your dragon”

"How to train your dragon", de Chris Sanders e Dean DeBlois

A DreamWork Pictures volta a conseguir prodígios com a tecnologia tridimensional, primando no imenso detalhe hiper-realista no filme inteiro, desde as fibras das roupas, a pelos, cabelo e barba, a cera a derreter a cenas subaquáticas.

A história passa-se numa aldeia Viking, onde vive um povo guerreiro a que Hiccup tenta pertencer. Ele é pequeno e fraco, não como os restantes Vikings, e por isso acham que ele não será como os demais. Contudo, um dia, ele captura um dragão, os inimigos mortais da aldeia, e sem ninguém mais saber, trava amizade com a criatura, que é incapacitada e não pode voar sozinha.

Trata da obsessão que por vezes nos faz esquecer quem os outros são, trata de nos sabermos valer, apesar das dificuldades, trata de ter engenho, e sobretudo, de não tomar nada por certo de imediato, porque “tudo o que sabiam sobre dragões estava errado” – os dragões não lutavam para destruir a aldeia, mas para conseguir víveres…

A história é baseada no livro homólogo de Cressida Crowel, embora a produção, a meio da execução do projecto, tenha decidido afastar-se do rumo do livro.

Os realizadores, Chris Sanders e Dean DeBlois, trabalharam ambos previamente em filmes de animação como “Lilo & Stich” e “Mulan”, e contaram com banda sonora do compositor John Powell. As dobragens original e portuguesa são ambas apropriadas para as personagens, coordenadas com o visual, agradáveis. O filme não desenvolve tanto as personagens quanto às suas relações, ao seu passado, à sua própria personalidade – fazendo um pouco das personagens um desfile de arquétipos cinematográficos, o que não prejudica tanto o filme, que se faz valer e transpõe essa barreira com maior envolvimento e desenvolvimento emocional directo.

É um filme muito bem conseguido pela técnica, que contou até com Roger Antony Deakins, conhecido cinematógrafo inglês, mas igualmente pela história, que não deve ser interpretada por analogias com a sua inspiração, mas entendida como uma obra independente


“The Imaginarium of Doctor Parnassus”

"The Imaginarium of Doctor Parnassus", de Terry Gilliam

Parnassus – O Homem que queria enganar o Diabo” é de 2009 e contém a última actuação do actor Heath Ledger. Foi realizado por Terry Gilliam, do popular grupo cómico “Monty Python“.

A sua produção foi abalada pela morte do actor principal da equipa, o que quase deitou o projecto por terra. Foram, depois de alterado o argumento, contratados 3 actores para completar o filme: Jude Law, Johnny Deep e Collin Farrel.

Conta a história do monge Parnassus, que é seduzido pela promessa de imortalidade que o Diabo lhe oferece numa aposta. Parnassus ganha do Diabo poderes para levar as pessoas à sua imaginação através de um espelho com que monta um espectáculo itinerante. Contudo, a imortalidade de Parnassus tinha a a condição de que qualquer criança sua, aos dezasseis anos, passaria a pertencer ao Diabo. E a filha de Parnassus está prestes a atingir essa data pelo começo do filme. O Diabo envolve-se então numa última aposta com Parnassus pela alma de Valentina – cinco almas em dois dias. E nisto, surge Tony, um misterioso estranho sem memória do passado, que vai ajudar a salvar Valentina.

Este filme tem uma fotografia fascinante, saturada muitas vezes, brilhante, luminosa, confundindo a composição visual. Todos os elementos são tipicamente fantásticos, aleatórios ou talvez unidos por um fio-condutor mas muito ténue. A história faz tanto sentido como os demais trabalhos porque Terry Gilliam é conhecido – é um universo tão próprio que se solta das amarras da convenção “real” para tornar tudo incrível.


3 filmes fantásticos

Estes três filmes são algumas das metragens que passaram no Festival de cinema fantástico Fantas Porto:

Re-animator“, de Stuart Gordon, feito em 1985. Trata-se da história de um homem que, expulso dos laboratórios europeus, continua os seus estudos secretos nos Estados Unidos da América. Este desenvolve um soro capaz de re-animar o cérebro, mas as peripécias da história farão com que uma praga de zombies sujeitos a lobotomia caminhem imparáveis sob o controlo do cientista que cobiça a descoberta do soro. É um filme baseado na história de H.P. Lovecraft, e tem duas sequelas.

Braindead“, de Peter Jackson, realizado a 1992. O filme conta numa abordagem satírica e romântica a história de uma maldição de uma besta mítica neozelandesa que cai sobre Welligton. Os que são feridos pelo Rato-Macaco da Sumatra são lentamente transformados em decadentes seres moribundos, e quem permanece livre dessa condição é um alvo para eles. Especialmente gráfico, mas ligeiro ainda assim, o filme venceu a edição de 1993 do Festival Fantas Porto.

Collin“, de Marc Price, em 2008. O filme segue a história de um rapaz transformado numa criatura algures entre a vida e a morte, que deambula sem rumo num cenário apocalíptico urbano. É emocionante e detalhado, usando símbolos próprios para ligar as histórias paralelas que surgem no ambiente caótico dos eventos.


Wim Wenders – “Porque filma?”

A Lógica das Imagens

Porque Filma?

“Quando, com doze anos, rodei o meu primeiríssimo filme com uma câmara de oito milímetros, coloquei-me à janela de casa e filmei de cima a rua, os carros e os transeuntes. O meu pai viu-me e perguntou: “Que fazes tu aí com a câmara?” E eu disse: “Estou a filmar a rua, como bem vês.” “E para quê?”, perguntou-me ele. Não soube que responder. Dez ou doze anos mais tarde, rodei a minha primeira curta-metragem em 16 milímetros. As bobinas tinham duração de cerca de três minutos.

Filmei um cruzamento, do sexto andar, sem mexer a câmara e durante tanto tempo até a bobina estar vazia. A ideia de parar a câmara antes não me ocorreu. À distância, posso imaginar que isso me deve ter parecido um sacrilégio.

Que espécie de sacrilégio?

Não tenho cabeça para teorias. Só raramente me recordo de alguma coisa que tenha lido. Não posso, por isso, também citar exactamente uma frase de Béla Balázs que, contudo, me impressionou muito. Fala da possibilidade (e da responsabilidade) de o cinema “mostrar as coisas como elas são”. E de que o cinema pode “salvar a existência das coisas”.

É isso, exactamente.

Ou aquela frase de Cézanne, segundo a qual “as coisas desaparecem, Temos de nos apressar, se queremos ver alguma coisa”.

Em todo o caso… maldita pergunta: porque filmo? Ora, porque… Alguma coisa acontece, vêmo-la acontecer, filmamo-la enquanto acontece, a câmara observa, conserva-a, podemos contemplá-la repetidamente. A coisa já não está lá, mas a contemplação é possível; a verdade da existência desta coisa, essa, não se perdeu. O acto de filmar é um acto heróico (não sempre, nem sequer frequentemente, mas por vezes), A progressiva destruição da percepção exterior e do mundo é, por um instante, suspensa. A câmara é uma arma contra a miséria das coisas, nomeadamente contra o seu desaparecimento. Porquê filmar? Não saberá de outra pergunta menos idiota?”


“A Bela e o Paparazzo”

"A Bela e o Paparazzo", de Vasconcelos

Filme de 2010, por António-Pedro Vasconcelos; uma comédia romântica com nomes como Soraia Chaves, Marco D’Almeida ou Nuno Markl.

O filme gira sobre a insistente invasão da “imprensa cor-de-rosa” na privacidade de celebridades, da pressão envolvida nos meios mediáticos. A história revolve essencialmente em torno de um amor impossível: uma vedeta televisiva e o paparazzo que a persegue. Simultaneamente, segue a história dos companheiros de andar do paparazzo, que pretendem proclamar a independência do condomínio e criar um novo estado.

É um filme aprazível, simples, curto, humorado, inspirado, ainda que o enredo seja algo previsível ou se possa mesmo achar injustificada alguma comédia do Nuno Markl, por vezes “fácil”, como piadas de teor sexual, ou as frases que aparecem nas suas t-shirts.

No estilo mainstream do realizador, agradável mas não descabido de arte, com uma participação secundária de Vasconcelos actuado em frente à câmara, já recorrente nos seus trabalhos.

O filme contou com um single de Jorge Palma, “Tudo por um beijo”, usado da produção e promoção do filme.