Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Escritores e Obras

“A Queda dum Anjo”, de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, em Lisboa. Na sua adolescência formou-se em literatura clássica e eclesiástica, em contacto com a vida transmontana. Casa, em 1841, aos 16 anos, mas o casamento durou apenas um ano, e ingressou na Universidade. Desde então, já começa os seus problemas com autoridades, sendo várias vezes perseguido e espancado por publicações que faz em jornais. Tenta, no Porto, o curso de Medicina, e, depois, Direito. No Porto, adopta uma vida boémia, dedicando-se, entretanto, ao jornalismo. É preso pelo seu romance com Ana Plácido, mulher casada, mas depois é perdoado. Passam a viver os dois juntos, tendo Camilo 38 anos, agora. Em 1885, recebe o título de Visconde de Correia Botelho, e casa com Ana Plácido em 1888. Vive com dificuldades financeiras, instabilidade emocional e progressiva cegueira causada pela sífilis. Quando se tornou certo de que ele nunca recuperaria a visão, suicidou-se a 1 de Junho de 1890. No todo, a sua carreira literária rendeu-lhe 260 obras, entre romances, ensaios, traduções…

O tema de “A Queda dum Anjo” é a corrupção política, um tema recorrente no seu trabalho, como romancista ou jornalista, criticando a decadência da moral da sociedade portuguesa do século XIX e dos seus governantes. Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda nasceu a 1815, com 44 anos no momento da acção , na aldeia de Caçarelhos, e é um erudito mergulhado constantemente nos seus clássicos de História, Cultura, Música, Vinhos, Filosofia. É um pequeno deputado do Minho, enviado como representante da região para a Assembleia, em Lisboa. É um defensor ferrenho das suas convicções “antiquadas” sobre a moral, a verdade e a justiça, e a sua cruzada eterna contra a depravação e a corrupção acaba esquecida, quando ele próprio é seduzido pelo luxo e prazer que a capital pode oferecer. Acaba por se envolver num romance extra-conjugal com uma prima muito distante. O livro é um dos mais conhecidos de Camilo Castelo Branco, um exemplo do seu estilo romântico, ainda que satírico.

Além de Calisto de Barbuda, não há muitas mais personagens com que o leitor ganhe maior contacto. O próprio Calisto é um erudito conservador, ligado ao passado, às lições da História, às antigas noções de moralidade e bondade. Vive para a sua obsessão literária, chegando a passar a noite de núpcias a ler Viagem à Terra Santa, enquanto a mulher limpava o tecto do quarto. É um intelectual, ao início, muito convicto nas suas opiniões contra os luxos a que se prestam os restantes deputados e membros da elite ulissiponense/lisbonense. É um pouco ingénuo, como quando chegou a Lisboa pela primeira vez, bebendo das fontes que os seus clássico diziam possuir poderes mirabolantes – e quando bebeu das fontes, a garganta e o estômago arderam por quinze dias. É um homem de meia-idade, muito magro, de cara ossuda e barbeada, postura digna. Já o seu companheiro de Lisboa, o abade de Estevões, é um pouco mais boémio que o seu amigo Calisto, amando a comida e a recriação musical. É quem guia Calisto por Lisboa, afastando-o dos conselhos desactualizados dos clássicos do minhoto. É um apoiante da antiga moral, tal como Calisto, mas gosta de apreciar comida e canções, pecando com gula e luxúria enquanto membro do clero.

O romance passa-se entre o Minho, terra natal de Calisto, e Lisboa, a sua Babilónia, em 1859. O principal espaço da obra é Lisboa do século XIX, uma Lisboa poluída, entregue a um povo desgovernado e deputados desleixados, caprichosos e corruptos. É uma cidade soturna, despida da glória antiga das naus dos Descobrimentos, como diria o próprio Calisto, e pouca mais informação Camilo Castelo Branco, que é narrador heterodiegético na obra, dá sobre as paisagens e locais, deixando à dedução do leitor; cria, sim, algumas passagens mais pormenorizadas esporadicamente, principalmente relacionadas com as origens do homem-anjo minhoto.

É uma obra notável, merecedora do crédito que recebe da crítica, no geral. Camilo Castelo Branco funde a realidade e a ficção numa perfeição quase inigualável, chegando, para esse efeito, a incluir-se como narrador heterodiegético da obra e a revelar o único desgosto que um livro alguma vez deu a Calisto – uma das suas próprias obras, que Calisto terá enchido de “galicismos e manchas de toda a casta”, plenamente desiludido. A obra não oferece grandes descrições, e quase expõe as sessões parlamentares da Assembleia como se duma peça dramática se tratassem. É uma grande crítica de Camilo à sociedade, tipicamente sua, mas que ainda se poderá aplicar aos nossos dias, infelizmente. É uma obra em que a Assembleia Nacional é exposta em todos os seus aspectos negativos; uma obra que tenta mostrar como devemos manter-nos fiéis às nossas convicções pessoais e lutar por elas e pela dignidade individual e colectiva, não deixando que humilhem as instituições governamentais e o povo que elas representam.


“Contos”, de Eça de Queiroz

A obra incluí, de entre outros contos, No MoinhoeSingularidades de uma Rapariga Loira, de Eça de Queiroz

Eça de Queiroz foi não só um importante membro da alta sociedade do século XIX como político, mas também como escritor, sendo considerado dos mais importantes Realistas e Romancistas da Literatura Europeia. Eça de Queiroz nunca editou os seus contos, vindo, mais tarde, o seu grande amigo Luís Magalhães reunir os textos e compilá-los num só volume.

Sobre os contos de Eça de Queiroz, sabe-se que os escrevia esporadicamente, normalmente com base em pequenos detalhes da sua vida quotidiana ou das viagens que fazia – em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, o autor foi inspirado por um leque chinês que adquiriu numa viagem a Macau, cidade onde também adquiriu um manto que o inspirou a escreveu “O Mandarim”. Eça de Queiroz deixou um vasto espólio de anotações do Egipto, Ceuta, Macau, França, bem como diários verídicos de situações da realidade que inspiravam os seus romances – sobre o realismo nos seus trabalhos, chegou a haver um grande alarido em Leiria, no tempo do autor, para descobrir quem eram os homólogos na vida real das personagens de “O Crime do Padre Amaro”.

Ambos os contos (“No Moinho” e “Singularidades de uma Rapariga Loira”), à boa maneira de Eça de Queiroz, retratam “pequenos grandes escândalos” da sociedade da sua altura – amores proibidos em ambos. “No Moinho” é assim intitulado por o ponto alto do conto, quando o amor proibido das personagens principais é consumado, se passar no moinho da localidade em que tudo acontece. “Singularidades de uma Rapariga Loira” refere-se às qualidades “singulares” da rapariga por que o personagem principal se apaixona.

No Moinho” segue a história da mulher-modelo, Dona Maria da Piedade, uma belíssima jovem presa a um casamento infeliz com um homem velho e três filhos doentes. Todos os dias as pessoas da vila a vêem bordar todas as tardes com a mesma cara abatida, e veneram a devoção que Maria tem ao seu matrimónio. Porém, um dia, o primo do seu marido, Adrião, vem à vila, e Maria da piedade vê-se presa num conflito entre o dever e os sentimentos, deixando-se vencer pelo amor refugiada no velho moinho com o jovem Adrião.

Singularidades de uma Rapariga Loira” é o relato de Macário a um homem que conhece numa estalagem. Macário conta-lhe como a sua vida mudou por completo após ter encontrado uma rapariga da varanda do seu escritório de “guarda-livros”, de contabilista. Macário conhece a rapariga em vários encontros, e passa a querer casar-se com ela, mas o casamento não é permitido pelo tio para quem trabalha em Lisboa, abandonando ele o seu emprego e arranjando e perdendo fortunas em múltiplos negócios, tudo para que pudesse eventualmente garantir o sustento dele e de Luísa, para se casarem de vez. Entretanto, o seu tio perdoa-o e volta a acolhê-lo, mas, no fim, Macário e Luísa voltam a ficar separados.

O narrador, em “No Moinho”, é Heterodiegético, não participando na história, mas já em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, o narrador é um qualquer estranho a que Macário se dirige para relatar a sua história, podendo até se entender esse estranho como o próprio autor, Eça de Queiroz, que, nesse caso, será uma personagem secundária do conto, logo Homodiegético. Em ambos os casos, o narrador é Observador, de focalização interna, adoptando o ponto de vista da personagem principal, Maria da Piedade ou Macário; e Subjectivo, apresentando comentários e anotações tipicamente queirosianos, com inúmeras alusões a aspectos religiosos, políticos ou de qualquer outra natureza social que envolve o leitor num profundo emaranhado de informações fictícias e reais – o que sustenta as ficções de Eça de Queiroz nos limiares da realidade.

As personagens principais dos dois contos, por norma, são modeladas, sofrendo mudanças que lhes causam as suas histórias de vida, mas sempre num ciclo de eventos que as leva de novo à sua origem – D. Maria da Piedade passa de modelo de virtude a mulher sem moral, mas continuando a servir a família; Macário passa de apaixonado a traído, mas começando e terminando o seu conto sob a alçada do tio. Das demais personagens que surgem nada mais se sabe além do essencial para o desenvolvimento do enredo, logo, personagens Planas, como o joalheiro, ou, por vezes, personagens-Tipo, como o tabelião da Rua dos Calafates – o típico velho erudito ocupado com as festas e entreténs com os seus iguais abastados, que acabavam guardando para si a música erudita, a literatura, os teatros e óperas e outras extravagâncias culturais privadas – ambos personagens de “Singularidades de uma Rapariga Loira”. A caracterização das várias personagens passa, normalmente, pela primeira descrição genérica de características reconhecidas por outros na imagem que a personagem dá – Heterocaracterização. Uma mais aprofundada caracterização é apresentada ao longo do conto, transmitida pelas acções que a personagem toma – Caracterização Indirecta.

A acção em si, dos dois contos, concentra-se nas vivências conturbadas de membros da burguesia, de proprietários ricos que comporiam a nata, a elite da alta sociedade portuguesa, mas que ainda assim se envolvem nos labirintos mundanos das tramas amorosas.

A estrutura na intriga é extraordinária apenas em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, havendo o encaixe de uma narrativa (a dos eventos de Macário) numa outra (o encontro do narrador com Macário).

Em “No Moinho”, o Espaço e o Tempo não são especificados, apenas se referindo que o conto se passa numa vila rural, talvez no tempo de vida do autor. Já em “Singularidades de uma Rapariga Loira”, várias referencias espaciais são feitas, já que o narrador encontra Macário numa estalagem no Minho, o próprio Macário tendo vindo de Vila Real e trabalhado com o tio em Lisboa, em 1823 ou 33 – logo, as referências temporais, mesmo algo vagas, existem.

Em ambos os trabalhos, as marcas do estilo queirosiano surgem, desde o realismo das histórias às figuras de estilo , como a hipálage (“… seus cabelos violentos e ásperos…”) ou a sinestesia (“…frescura da verdura…”), a adjectivação dupla ou até tripla (“…movimento sôfrego apaixonado…”), as alusões que faz (“Era um recanto de natureza, digno de Corot…”) entre outras.

Eça de Queiroz deixou uma grande obra literária que o tornou no grande vulto da cultura portuguesa e da literatura europeia que é. Foi um erudito, um político activo e uma personalidade cultural de grande respeito entre demais do Portugal e da Europa do seu tempo (Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Émile Zola…). Cosmopolita, cultivava amizades e contactos com inúmeros homens e mulheres de cultura, sendo interessado por pintura e música, ciências, política, misticismo, religião. Viajou por muitos locais e participou em grandes eventos, como a inauguração do Canal do Suez. Coleccionava itens e registava detalhes de todas as suas excursões e reuniões em pequenos cartões, que ainda podem ser vistos na sua casa-museu, em Torges – pormenores que o inspiravam nos seus trabalhos escritos, que produzia meramente por prazer e criatividade, ao contrario, por exemplo, do seu contemporâneo Camilo Castelo Branco, que vivia dos seus vastos escritos.


“Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett

Almeida Garrett foi uma personalidade portuguesa romântica, do século XIX. Foi político, escritor, e o introdutor do movimento do Romantismo em Portugal. Neste tempo, caem de vez os governos déspotas, dando lugar ao liberalismo político, em sociedades inconformistas e culturas com repúdio das limitações – enfatizam-se o lirismo, o nacionalismo utópico, o sonho exacerbado, o escapismo; depois, o pessimismo, o naturalismo, a religiosidade; e por fim, o realismo e a ironia enfatizada.

Uma dessas correntes românticas, o patriotismo utópico, ligava os românticos às suas origens nacionais tradicionais. Esse é o caso da obra “Frei Luís de Sousa“, passada no período da perda da independência portuguesa para os reis espanhóis após o desastre da Batalha de Alcácer Quibir, em que o rei D. Sebastião se perdeu, sem deixar herdeiro ao trono – é nesse período de domínio estrangeiro, de união ibérica, que a peça dramática “Frei Luís de Sousa” se passa.

O primeiro Acto é passado no palácio de Manuel Coutinho, em Almada, no quarto luxuoso da viúva Madalena, jovem e inexperiente, lendo “Os Lusíadas” sozinha, refugiada temporariamente do luto, do medo, da solidão constantes. Esta reflecte sozinha até que vem até ela Telmo, o aio do seu primeiro marido, João, desaparecido em Alcácer Quibir. Só depois de sete anos do desaparecimento do marido é que Madalena voltou a casar. Desposou Manuel Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem teve uma filha, Maria, com treze anos pela altura da peça. Maria é doente e frágil, deixada a ler protegida por Telmo, que a criou desde pequena. Quando Manuel chega ao palácio de Lisboa, chega também a nova de que os governadores arranjados por Madrid para Portugal estão a chegar – pretendem hospedar-se no palácio de Manuel até os surtos de peste cessarem. Num acesso de exacerbado patriotismo, Manuel leva todas as pessoas e queima a própria residência.

O segundo Acto é passado na residência do primeiro marido de Madalena, para onde a família foge em busca de abrigo. Telmo, forçado em juramento a não falar mais de João de Portugal, seu aio antigo, mente quando Maria aponta para um retrato do cavaleiro. Frei Jorge, irmão de Manuel, conseguiu um perdão do arcebispo para a afronta de Manuel para com os governadores. Madalena está muito inquieta, sentindo a sombra do marido sob aquele tecto. Pouco depois, surge um estranho romeiro, que afirma saber de novas de João de Portugal, que este está vivo. A desgraça abate-se sob a família de Madalena, que é agora uma adúltera com uma filha bastarda e um amante desonrado.

No terceiro Acto, passado na capela do palácio de João de Portugal, Maria adoeceu bastante. O romeiro revela ser o próprio João de Portugal, mas apenas ao seu servo Telmo, e ordena-lhe que o desacredite, para tentar evitar a desgraça de Madalena, Maria e Manuel. João vai partir de vez, mas Manuel e Madalena já se preparam para receber os votos, depois de informarem Maria. Quando estão prestes a receber os hábitos religiosos, Maria interrompe a cerimónia para tentar desesperadamente que se esqueça a verdade. Por fim, sem forças, cai morta em palco, ao jeito tipicamente romântico.

Toda a peça se enche de presságios, alusões, num grande historicismo de Garrett, e a morte de Maria, o sentimentalismo de Madalena, o patriotismo de Manuel – isto é o Romantismo traduzido na construção das personagens e da trama narrativa da peça.


“O Profeta”, de Khalil Gibran

Khalil Gibran

Khalil Gibran viveu entre 1883 e 1931. Foi um Americano Libanês escritor, lírico, artista. Foi um dos grandes inspiradores da contracultura gerada a partir dos anos 60. Inspirou várias obras artísticas e memoriais suas, e dos seus trabalhos, o mais popular e a que se atribui maior valor é “O Profeta”.

Essa obra revolve-se em torno da despedida. Um mestre, Almustafá, chegou a uma cidade, Orphalese, para esperar o seu barco. Levou doze anos para que aparecesse. Todavia, quando se preparava para partir, rebentos de saudade germinaram numa massiva multidão que lhe pedia que lhe desse uma última lição. Então, à vez, são perguntados os veredictos de Almustafá sobre certos assuntos: um hospedeiro pede que fale da comida e da bebida, um tecelão que fale das vestes, um jurista das leis, e alguém entre tantos da liberdade, ou da razão e a paixão, ou da própria despedida. É Almitra quem faz esta última pergunta e ela fica sob a margem vendo o barco partir.

O Tempo

Um astrónomo disse: Mestre, que pensas do Tempo?

Gostaríeis de medir o tempo, o infinito e o incomensurável. Gostaríeis de ajustar a vossa acção e até orientar o curso do vosso espírito de acordo com as horas e com as estações. Gostaríeis de fazer do tempo um rio em cujas margens pudésseis sentar-vos a contemplar o seu curso.

No entanto, o infinito que há em vós tem consciência da eternidade da vida; e sabe que o presente é só memória do dia de ontem e que o amanhã é sonho do presente. E que aquilo que em vós canta e em vós contempla mora ainda nos limites daquele primeiro momento que semeou as estrelas no espaço. Quem de vós não sente que o seu poder de amar é ilimitado? Quem não sente que esse autêntico e verdadeiro amor, embora sem limites, e fechado no centro do seu ser, não se desloca de um sentimento de amor a outro sentimento de amor? E não é o tempo, como o amor, indivisível e imóvel?

Se no vosso pensamento tiverdes de medir o tempo em estações deixai que cada estação abrace todas as outras. E deixai que o dia de hoje abrace com saudade o passado, e o futuro com ansiosa esperança.”


“O Perfumista”, de Joaquim Mestre

"O Perfumista", de Joaquim Mestre

Este autor estreou-se com “O Livro do Esquecimento”, de contos, e com o romance “A Cega da Casa do Boiro”. Participou também nas revistas “Rodapé” e “Pé de Página”, como director. É de Beja, director da Biblioteca Municipal, um entusiasta da literatura e dos aromas vinícolas.

Este seu livro, “O Perfumista“, gira sobre o retorno de um perfumista dado como morto na Batalha de La Lys, a esquecida derradeira defesa épica de portugueses na Primeira Grande Guerra. Traça um retrato do recomeço da sua vida, quando todos os que conhecia antes da sua partida parecem ter sido erradicados por febres. Uma viagem enriquecedora, muito pessoal e enternecedora, ainda que perturbante, ou quase chocante ao Alentejo do início do século XX. É uma leitura aprazível, deliciosa, de descrições ricas, emocionantes, aromáticas…

“Tu dizes que ela se deitou nas ervas em cima de umas sacas velhas e que sentiste os seus peitos nas tuas mãos, como se fossem frutos a medrar ao sol, o sabor acariciante dos seus lábios, o abismo negro dos seus olhos a entrar dentro de ti… Tu lembras-te de a ver nua, tremendo de frio, de loucura ou de desejo.

Ela diz que não era frio, nem loucura, nem desejo. Era medo. Medo de te perder.”


“Caim”, de José Saramago

"Caim", de Saramago

No estilo característico do escritor galardoado com um Nobel da Literatura, “Caim” é uma expedição metafísica através de um olhar algo irónico, desenraizado das amarras do fanatismo religioso. Planando pelas primeiras escrituras da tradição cristã com fantasia e liberdade, Saramago propõe uma visão diferente das mesmas personagens e eventos bíblicos de sempre, refrescando-as com motivações humanas em vez de divinas.

O autor começa logo a nossa jornada após o momento da criação de Adão e Eva. Retrata os primeiros instantes da vivência humana, mas não exclui a existência de outros começos da Humanidade, outros paraísos terrenos em que Deus operou as experimentações divinas.
Deus é um artista frustrado, retocando invariavelmente a sua criação numa demanda utópica de o tornar sua imagem e semelhança.
Adão e Eva desfloram da sua inocência, um dia, descobrindo tudo o que não é tão angelical na existência, sofrendo a desilusão de uma criança crescida. Provada a fruta proibida que Deus podia ter posto noutro lado não querendo que a papassem, Adão e Eva são botados no deserto para se desenvencilharem por sua conta.
O fabuloso legendário instinto de mulher actua desde cedo em Eva, e esta faz o que é preciso para conseguir dos homens, ou arcanjos, o que necessita.
Descobrem como se juntar a uma caravana do deserto, como aprender ofícios, como conviver com as demais humanidades.
Passados os meses de gestação desde que Eva falou com o Arcanjo, nasce o primeiro rebento, o angélico Abel, a que seguiu o irmão, Caim.
Abel foi dedicado pastor e Caim agricultor. Contudo, “Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.”, parafraseando Hebreus, 11, 4.
Caim assassina Abel e tomou o seu nome, fugido e marcado por Deus na testa com um sinal que o tornaria um caminhante eterno, protegido das intermitências da morte, mas não da vida.

Somos, portanto, jogados numa fantasia bíblica um pouco à imagem do próprio Caim do livro, mandados para uma viagem pessoal de exploração, de adolescente reviver de emoções primitivas imperantes.