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Filosofia

Livros Filosóficos ou Artísticos

A Sociedade Invisível“, de Daniel Innerarity. A Filosofia entendida como uma das Belas Artes.

O Estrangeiro“, de Albert Camus.

O Erro de Descartes“, de António Damâsio.

A Casa do Pó“, de Fernando Campos.

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O Conhecimento Científico

1 – Caracterizar o senso comum como forma específica de conhecimento, realçando os seus aspectos positivos e negativos.

O “senso comum” resume-se a uma simples generalização de impressões dos sentidos, um conhecimento confuso definido por hábitos e relações de causalidade imediatas. É um conhecimento imperfeito, ainda que útil, por ser imediato, aplicável num concreto instantâneo/contexto do quotidiano. Apesar de propor generalizações, não se tratam das mesmas que a ciência promove – a generalização científica visa oferecer uma premissa  para deduções concretas; a generalização vulgar promove apenas uma premissa valente para certos hábitos. O senso comum é superficial e incompleto, subjectivo, ambíguo, a-metódico, mas essencial no dia-a-dia.

2 – Caracterizar a ciência, entendida como apropriação específica da realidade, cujos caracteres dominantes são a racionalidade, a objectividade, a positividade, a universalidade, a revisibilidade e a autonomia relativa.

O conhecimento científico aspira à universalidade dos seus resultados,  a crescentes objectividade e rigor, sendo metódico e sistemático, usando se linguagem técnica e abstraccionista. Trata-se de uma construção racional, uma análise objectiva de fenómenos e uma aproximação à verdade/uma tentativa metódica de explicar a realidade. E, para além disto, a ciência é também crítica e reformativa.

3 – Relacionar o senso comum e a ciência.

Portanto, ambas as modalidades do conhecimento têm o seu lugar: o senso comum procura objectivamente responder a problemas particulares, e responde a hábitos e causalidades imediatas, numa abordagem sem método algum, elementar, simplista, sendo ambíguo e imperfeito; o conhecimento científico já se aproxima progressivamente da abstracção, da universalidade, usando de clareza e rigor para atingir leis e teorias científicas por que se compreende a realidade.

4 – Definir “método científico” e compreender suas origens históricas na Idade Moderna.

O conhecimento científico caracteriza-se por ser um trabalho metódico, rigoroso, fiável. Este método constitui uma aproximação sincera à verdade, que com esta prática, deixa de depender de uma “autoridade” para depender de uma verificação experimental. O método científico é criado pelos pensadores do século XVI, pela Idade Moderna, primeiramente com René Descartes, Francis Bacon, Galileu Galilei e Isaac Newton. Descartes prende-se ao raciocínio dedutivo, matemático Bacon descobre leis científicas não pelo raciocínio silogístico aristotélico, mas pela observação e experimentação deliberadas, um método indutivo, empírico. Galileu preocupou-se com minar a autoridade de testemunhos falaciosos pelos quais se fazia a ciência na sua altura. Com a perda dessa garantia institucional, dá-se o advento do pensamento científico moderno, para que a abordagem sobre o estudo dos fenómenos não é meramente teórica e distante, mas empírica, aproximada, pela observação selectiva directa e pela experimentação propositada.

5 e 6 – Reconhecer as etapas do método científico hipotético-dedutivo; Articular diferentes etapas.

O método científico hipotético-dedutivo caracteriza-se por 3 momentos: a OBSERVAÇÃO, metódica e ordenada, selectiva (e por vezes instrumental) de um fenómeno; a colocação de HIPÓTESE explicativa provisória desse mesmo fenómeno, num acto imaginativo, construtivo de suposição de relações entre fenómenos, de raciocínios dedutivo, indutivo ou análogo; e a EXPERIMENTAÇÃO, por que se comprova a hipótese numa observação controlada. Deste trabalho científico se constrói modelos, Teorias ou Leis científicas, o objectivo último do método.

A ciência produz leis científicas por que depois se pode intervir sobre os fenómenos da natureza. A ciência deve “prever e prover”, segundo as palavras do positivista Auguste Comte – a ciência deve permitir ao Homem prever os fenómenos naturais, para que se possa prover de meios para os enfrentar.

7 – Explicar as insuficiências e limitações do raciocínio indutivo.

A ciência afasta-se muitas vezes de doutrinas antigas, como a lógica aristotélica, no enunciado de leis universais. Estas mesmas leis põem o problema de não poderem ser efectivamente verificadas à escala universal – e assim se evidencia o papel da indução na ciência moderna. Como as observações científicas são finitas, não se pode provar além de qualquer dúvida a universalidade de qualquer lei científica, e ainda assim a indução tem lugar na ciência, pois permite-lhe supor regularidades na natureza

8 –Analisar a concepção de ciência de Karl Popper.

Karl Popper era céptico quanto ao papel preditivo da indução, e propõe o problema da demarcação de teorias como científicas e não científicas. Para Popper, o objectivo da ciência é situar a realidade, através da teoria, o sistema hipotético-dedutivo; e a totalidade da ciência é dinâmica, avançando por entre possibilidades explicativas. Popper assume que o que se pode esperar da ciência é uma aproximação ao entendimento da realidade, e assim arrebate o positivismo pelo qual a ciência era infalível e cujas limitações não existiam, um dogmatismo linear que gerou uma visão simplista sobre os propósitos . A ciência é, em verdade, evolutiva, numa competição entre teorias, prevalecendo as melhores até que sejam substituídas por melhores. A ciência não é um conjunto de saber comulativo, antes progride com ideias arriscadas e pensamento especulativo provado falso – tudo isto parte de pensamento imaginativo, mesmo quando parte para a experiência, já que esta é orientada sob o planeamento inspirado de ideias – questões postas pelos cientistas à natureza a fim de esta responder ao esforço experimental com reacções fenoménicas. Popper exclui a indução, numa nova metodologia de investigação, o falsificacionismo.

9 – Explicar o método das conjecturas e das refutações que serviria para explicar, segundo Popper, o processo de investigação da ciência.

Pelo método do falsificacionismo, a teoria científica não aspira à verdade mas a uma especulação aproximada, e é válida até que se prove que é falsa – o método das conjecturas e refutações, por que a teoria é uma mera conjectura que se tenta substituir por outra mais precisa. Torna-se necessário provar não a verdade da teoria, mas a falsidade – para Popper, o erro é o motor da ciência. A sua postura epistemológica rejeita a ciência como um sistema de enunciados certos, mas antes de constante busca da verdade: “Não sabemos, só podemos conjecturar”. Popper admite a formulação de antecipações imaginativas, conjecturas, controladas por teses cuidadosos – a teoria falsificável é científica, pelo que a não falsificável, absolutamente correcta, não é científica. A falsificação das conjecturas é o trabalho da comunidade científica, que pode tornar a teoria falsificada, quando a prova falsa, ou “corrroborada”, quando até ao momento não conseguiu prová-la falsa.

Contrariamente aos positivistas, Popper entende a ciência não como enunciados perceptuais acumulados, mas antes um contínuo esforço de falsificação de conjecturas, hipóteses explicativas provisórias. A falsificação das conjecturas cabe à comunidade científica, através de testes sistemáticos. Assim, a ciência é naturalmente imbuída de um forte espírito crítico e capaz de imaginar e especular sobre a teoria sem restrições dogmáticas.

10 – Compreender o papel do erro na construção científica, segundo Popper, e as limitações do falsificacionismo.

Pela concepção epistemológica de Popper, o conhecimento científico é saber que pode ser tomado por errado, que é falsificável (daí chamar-se ao seu pensamento “Falsificacionismo”. Na concepção de Popper, o erro é, portanto, o motor da ciência, porque o erro provado de uma teoria impele a sugestão de uma nova, mais aproximada à realidade. Popper propõe isto na consciência de que nada pode ser universalmente verificado, havendo sempre um espaço de dúvida; a objectividade científica torna inevitável que todo o enunciado científico seja provisório. Às teorias, então, Popper prefere chamar “conjecturas”, até serem refutadas por novas. A experimentação da conjectura não verifica a sua verdade, antes o erro da mesma. Um teste que confirme a teoria não é definitivo, mas um que a refute já é. Uma conjectura ser corroborada significa que esta resiste por enquanto às tentativas de falsificação, não deixando de ser meramente provisória, até que finalmente seja refutada. Só experiências de convicção subjectivas, pensamentos algo religiosos, se podem tomar por completamente certos.

O falsificacionismo demarca, portanto, muito claramente o que é científico (falsificável) do não científico (que não pode ser falsificado) – Falsificacionismo, que questiona o valor preditivo da indução. Popper incute aos cientistas um procedimento racional de revisão crítica às suas convicções. Para os positivistas, que defendiam o poder preditivo da indução, o critério era a verificação empírica (Verificacionismo).

Contudo, o falsificacionismo tem o seu maior problema nesta mesma demarcação do que é científico ou não – ao se verificar um teste que refute uma conjectura, não poderá ser o caso que esse teste não tenha sido rigoroso o suficiente? E, caso se verifique a mesma refutação, quanto mais se deve tentar testar antes da refutação da conjectura? Aqui, o falsificacionismo depara-se com um problema difícil, a que responde, então, um comedido dogmatismo a que não é fácil pôr limites…

11 – Analisar a concepção de progresso científico de T. S. Kuhn de acordo com os conceitos-chave da sua epistemologia.

Kuhn entende que a evolução do conhecimento científico dá-se por abalos sucessivos, por recorrentes revoluções, rejeitando-se a produção de ciência por acumulação, mas antes por conflito. No pensamento de Kuhn, portanto, estão presentes estes conceitos:

Pré-Ciência – a actividade diversa e dispersa que precede a formulação da ciência universalizada

Paradigma – é o conjunto de elementos teóricos, linguísticos e instrumentais; é o modelo organizado de conceitos que legitimam o trabalho científico; os diferentes paradigmas surgem de criatividade e inovação, e são incomensuráveis, descontínuos, nunca estando directamente ligados.

Ciência Normal – ciência contextualizada no paradigma científico presente, representando um relativo conservadorismo face a modificações nos paradigmas, usando de estabilidade e não se propondo a inovar factos ou teorias, mas a resolver problemas postos

Comunidade Científica – o conjunto de indivíduos dedicados ao trabalho científico agregados pelo paradigma que partilham

Anomalia – desafio pontual ao paradigma

Crise – momento de acumulação de anomalias, em que o paradigma é seriamente questionado

Ciência Extraordinária – entra em ruptura com o paradigma, assumindo as anomalias

REVOLUÇÃO CIENTÍFICA – o paradigma é completamente substituído pela comunidade científica

Estes conceitos dividem-se por 3 momentos de cada revolução científica: a fase normal, em que a comunidade opera com a ciência normal o paradigma; a fase crítica, em que surgem as anomalias; e a fase revolucionária, em que rebenta a crise e a revolução. A mudança de paradigma dá-se por os cientistas encararem de forma diferente o seu universo de pesquisa.

12 – Mostrar como a concepção kuhniana de objectividade científica supõe a aplicação de um conjunto de características.

A teoria científica, segundo Kuhn, imbui-se de exactidão, por que deve existir reciprocidade entre a teoria e a prática, não existindo teoria sem factos ou vice-versa; consistência, havendo necessidade de fundamentação consistente, interna e externa; alcance, as suas conclusões devem chegar para lá das observações particulares e projectar-se universalmente; simplicidade, exibindo organização matemática; e fecundidade, por que uma teoria dá aso a novas observações e teorias. Por estes cinco critérios se avalia a adequação de uma teoria, a objectividade científica da teoria.

13 –


Senso Comum e Conhecimento Científico

Bachelard aborda o Conhecimento como composto de dois estatutos distintos: o Senso Comum e o Conhecimento Científico.

O Senso Comum é uma especialização da inteligência no particular e concreto. É uma abordagem individual, empírica, sobre o “real empírico”, natural ou social, sem qualquer método ou sistema recorrente. A sua linguagem é natural, corrente, vulgar, e, no fundo, serve para uma melhor adaptação à vida quotidiana, integrando o sujeito pessoal e socialmente. O Senso Comum reúne o Empirismo com o Realismo e com o Dogmatismo ingénuos, sendo, afinal, um obstáculo epistemológico por não procurar verdadeiro conhecimento universal, antes conhecimento localizado.

O Conhecimento Científico já implica um sujeito depurado, epistémico, pluralizado – unido num pensamento colectivo, o Cogitamus (“pensamos”), como lhe chama Bachelard, por oposição ao Cogito individual de Descartes. O Científico reflecte sobre o “real construído”, o quadro explicativo aproximado, à realidade, de leis e hipóteses e teorias e conceitos. O Conhecimento Científico serve-se de uma “neolinguagem”, construção conceptual, técnica, com o propósito de compreender o real, explicá-lo e transformá-lo – um real físico/cósmico, humano/social e ideal/abstracto. O Científico liga-se às correntes do Racionalismo, Empirismo e Criticismo – um Racionalismo Aplicado, ou “Filosofia do Não”, como lhe chama Bachelard. Aspira a uma universalidade de resultados, objectividade crescente, com método e rigor, para atingir leis e teorias, utilizando linguagem técnica. É, na essência, uma construção racional, análise objectiva de fenómenos, uma aproximação à verdade.


Idealismo e Realismo

A possibilidade do conhecimento prende-se com os limites do cognoscível. Isto liga-se à noção da percepção, o processo activo pelo qual se interpreta sensações dos sentidos, implicando-se uma actividade cognitiva para além da mera recepção de estímulos, mas até a uma apreensão subjectiva destes, conferindo-lhes significado. Das percepções, surgem depois os conhecimentos. Mas em que medida é que estes são fiéis à imagem real que receberam?

Desde os primeiros filósofos que se questiona a natureza do conhecimento quanto à sua aproximação à realidade. Numa atitude céptica, achou-se que as ilusões a que estava sujeito quem tentasse entender a realidade bastava para que qualquer tentativa de entendê-la era fútil. Este cepticismo epistemológico estabeleceu as figuras do sujeito cognoscente e dos objectos cognoscíveis. Este cepticismo é uma teoria presa à (inexistência de) segurança na percepção da realidade, preocupando-se com o entendimento desta o mais aproximado possível – é, portanto, uma teoria realista.

Contudo, o Realismo de Senso Comum, ou Ingénuo, é contra o cepticismo, aceitando a realidade como é percepcionada pelos sentidos, directa e não mediatizadamente. Os objectos físicos são como parecem ser, pois os órgãos sensoriais são em geral fidedignos, apreciando o mundo realisticamente, e qualidades como sabor, cor ou som pertencem ao próprio objecto.

O cepticismo é contra este testemunho dos sentidos, que acha ilusório, distado da realidade.

Outra resposta à possibilidade do conhecimento é o Idealismo. Este defende que o que se conhece é uma experiência, mas encerrada na mente, e dependente da sua interpretação – sustenta que os dados sensíveis são elemento básico da experiência humana e essa experiência é de representações mentais, e não do próprio mundo, que não existirá verdadeiramente. Para o idealista, os limites do conhecimento são o próprio conhecimento.

O idealismo pode conduzir ao solipsismo, pelo qual tudo quanto existe é uma fabricação da mente. Esta posição é desconcertante na medida em que por natureza o Homem se projecta para fora de si, presumindo a existência do exterior. E sentimentos como vergonha ou embaraço não fariam sentido numa concepção solipsista, pois uma única mente não iria julgar-se a si própria negativamente para despontar essas emoções.

Os cépticos dizem abertamente que não podemos conhecer nada, os realistas ingénuos que podemos conhecer quanto somente experimentarmos, e os idealistas que somente o que está na nossa mente.

No fundo, a posição céptica parece simplista, mas não deixa de parecer ter alguma validade. Todavia, simplesmente, o céptico, sendo-o, sabe demais – sabe que o cepticismo é a única verdade, quando não devia saber de nada. Também, podendo nos enganarmos constantemente não implica necessariamente não sermos capazes de reconhecer a verdade, como podemos sempre mentir e ser capazes de dizer a verdade.


Dogmatismo e Cepticismo

Estas duas abordagens filosóficas tratam do problema epistemológico da possibilidade do Conhecimento, dos limites do cognoscível. Duas correntes filosóficas concorrentes, o Dogmatismo e o Cepticismo reflectem-se sobre outras correntes, como, respectivamente, o Racionalismo de Descartes e o Empirismo de Hume.

No Dogmatismo, a Verdade é possível e cognoscível; existem, mais conhecidos, o dogmatismo ingénuo e o dogmatismo crítico. É uma posição em que se atingiu e demonstrou verdades absolutamente certas. Normalmente, esta corrente liga-se ao domínio metafísico.

No Cepticismo, a Verdade é improvável e duvidosa; existem, mais conhecidos, o cepticismo radical/sistemático e o crítico/metódico. Questiona a própria hipótese de se obter conhecimento universalmente válido.


Kant – Problema do Conhecimento

Kant diz que é Hume que o faz despertar do seu sono dogmático. Diz isto enquanto racionalista que era, acreditando antes que a razão tudo podia conhecer, encurralando-se nesse dogmatismo. Hume fá-lo aperceber-se do papel da experiência sensível na construção do conhecimento. Kant, dividido entre ambas as escolas, propõe um novo olhar sobre o problema do Conhecimento.

Copérnico estabeleceu uma revolução cosmológica com o seu modelo heliocêntrico, e à sua imagem Kant revoluciona a Gnosiologia – nessa analogia, chama-se ao trabalho seu trabalho filosófico a “Revolução Copernicana de Kant“.

Até então, o sujeito sondava o objecto em órbita em seu redor. Contudo, Kant sugere que o sujeito é impassível, com as suas estruturas prévias, e o objecto circunda-as; o objecto não é objecto de conhecimento. O conhecimento provém de duas fontes: a capacidade de receber as representações, receptividade de impressões; a capacidade de conhecer o objecto mediante estas representações – ou seja, a Sensibilidade e o Entendimento.

Objecto – primeiramente é um todo incognoscível; o seu conhecimento dá-se em duas sínteses:

Matéria das Impressões (do objecto, exterior, posterior à experiência) e Formas da Sensibilidade(do sujeito, inteligibilidade sensível, intuições puras/condições transcendentais – Espaço e Tempo) – resultam num Fenómeno (intuições empíricas);

Fenómenos e Formas do Entendimento (do sujeito, a priori, 12 conceitos puros/categorias, que são funções lógicas do juízo aristotélico) – resultam em Matéria Fenoménica (empírica), que com as Formas do Entendimento formam Juízos do Conhecimento.

O Conhecimento, em Kant, está nas faculdades da Sensibilidade (faculdade por que são dados os objectos) e do Entendimento (faculdade por que são pensados os objectos espontaneamente no pensamento). E, para Kant, não nos conhecemos a nós próprios, podendo sermos sujeitos metafísicos, já que não há uma totalidade sensível para converter em fenómeno certo e depois em juízo de conhecimento.

Kant é céptico quanto ao conhecimento puramente racional, concorda com o empirismo, pois o conhecimento parte de impressões, e concorda com o racionalismo, pois compete ao entendimento dar lógica às impressões sensíveis.

Em Kant, há limites na possibilidade do conhecimento – o que a Razão (faculdade de raciocinar, com função teórica sobre ideias que não são objectos de conhecimento, objectos da metafísica) pensa não é conhecimento.


Síntese de Epistemologia (Racionalismo e Empirismo)

Descrever a estrutura do acto de conhecer, de acordo com a perspectiva fenomenológica segundo Hartmann.

Segundo Hartmann, o acto de conhecer compõe-se de dois intervenientes, o sujeito cognoscente e o objecto cognoscível. O sujeito tem nesta relação uma função activa, partindo para fora de si mesmo até ao objecto. É então que apreende as suas características, e regressa a si mesmo, tomando consciência do que aprendeu. O acto de conhecer dá-se, portanto, em três tempos, em que o sujeito passa a conhecer o objecto, ganhando assim consciência deste, mas em que o objecto permanece inalterado, pois as suas características não transmutam, antes o sujeito cria ele mesmo construções próprias nele mesmo, que são imagens do objecto.

Explique as questões fundamentais da Gnosiologia e as soluções clássicas para essas questões.

A Gnosiologia, ocupando-se do estudo, da teoria do conhecimento, dobra-se cobre questões como “O que é o conhecimento?”, “O que se pode conhecer?”, “Como alcançar o conhecimento?”. Na história da Gnosiologia, houve duas grandes escolas de pensamento centradas sobre os problemas da origem e possibilidade do conhecimento: o Racionalismo e o Empirismo.

O Racionalismo viu na Razão a fonte do conhecimento, nas estruturas lógicas, matemáticas, universalmente válidas, obtidas por inferências dedutivas. O Empirismo, por sua vez, reconhece apenas como conhecimento válido o que advém da experiência, do testemunho dos sentidos.

Caracterize a perspectiva racionalista do conhecimento, apresentando as teses fundamentais desta filosofia para as questões da origem e da possibilidade do conhecimento.

O Racionalismo é o primado da Razão, das ideias inatas, que não procedem da experiência, mas antes são património originário da razão, fonte de poder bem julgar. Foi defendido, na Era Moderna, primeiro por Descartes, que via na pureza matemática e lógica a chave para o conhecimento certo. Para conseguir livrar-se de todo o conhecimento falacioso, portanto, Descartes aplicou sobre tudo a Dúvida, questionando a sua própria existência. Da total pureza de preconceitos, sem usar dos testemunhos enganosos dos sentidos, Descartes começou metodicamente a reconstruir o seu conhecimento, questionando-se sempre e usando somente o pensamento e o Método, o modo pelo qual devia pensar. No fundo, para Descartes, a Razão era prévia ao indivíduo, e universal a todos os outros. Era da Razão que advinha o verdadeiro conhecimento, das inferências dedutivas, lógicas.

Contraponha à tese racionalista a tese empirista acerca da origem do conhecimento.

Para o Racionalismo, a verdadeira fonte de conhecimento é a Razão, o pensamento lógico decantado dos testemunhos ilusórios dos sentidos. Por outro lado, o Empirismo vê na experiência humana a única forma de obter conhecimento, não havendo nesse caso património cognoscível a priori, como diz o Racionalismo. Para o Racionalismo, através da Razão o espírito humano passa a conhecer as verdades prévias do mundo. Para o Empirismo, é com a experiência que o espírito humano ganha consciência de conceitos, estando antes vazio por natureza.

Relacione a insistência de Descartes na busca de um método com o seu Racionalismo Filosófico.

Há semelhança do pensamento matemático, o pensamento racionalista de Descartes também se guiaria por regras de Lógica. A verdade não é mistério nenhum ao intelecto humano se este a procurar com a correcta orientação, que é para Descartes o Método,que se serve da Dúvida hiperbólica. Descartes usa a Dúvida segundo o método para que o seu uso seja eficaz, capaz de produzir verdades indubitáveis.

Fundamente a importância da dúvida na formulação da filosofia cartesiana do conhecimento.

Para Descartes, os sentidos, como podiam ser confundidos por ilusões ou sonhos, eram enganadores, e, logo, nenhum conhecimento advindo destes não seria válido. Descartes achou, então, que tudo quanto conhecia devia ser questionado: daqui surge o papel da Dúvida radical no seu pensamento filosófico. Para Descartes, a Dúvida completa é o ponto de partida para a construção do saber verdadeiro, necessário, lógico. Para Descartes, o critério da verdade é a clareza e a distinção que a razão lhe garante, e daí que a dúvida seja tão importante, para garantir que a verdade que se acha é indubitável.

Evidencie o papel de Deus na fundamentação do racionalismo inatista cartesiano.

Descartes acha na Dúvida absoluta o meio pelo qual se pode atingir as verdades racionais – estas verdades são sustentadas por Deus, entidade de que provém a Razão. Tendo, através do seu Método e da Dúvida, provado a sua própria existência, Descartes passou a provar a existência de Deus como garantia da sua existência e da sua capacidade de raciocinar. Descartes entende Deus como um “génio maligno” que permite aos homens ilusão e erro, mas de que simultaneamente provém a certeza, já que a verdade da existência de Descartes não é questionável.

Mostre quais são as teses fundamentais do empirismo, entendido como filosofia de David Hume.

O Empirismo, sistematizado por David Hume, opôs-se à teoria de Descartes racionalista. Para Hume, a fonte do conhecimento é experiência do Homem, a ciência natural de observação e experimentação. “Não há nada na razão sem que primeiro tenha estado nos sentidos” – máxima escolástica medieval de que parte o Empirismo. Todo o conhecimento começa com a experiência – impressões sensíveis são as unidades básicas do conhecimento. O conhecimento tem dois estados de percepção/tipos de conhecimento: Impressões – actos originários do conhecimento, imagens e sensações da experiência, da realidade; Ideias – representações debilitadas das impressões no pensamento, marcas deixadas pelas impressões passadas. Portanto, em Hume, as Ideias derivam das Impressões, logo, da experiência, renegando-se assim a noção de Ideias Inatas.

Explique a questão da origem, fundamento e validade das ideias segundo a filosofia de David Hume.

Hume considera que a origem do conhecimento é a experiência humana, que depois forma ideias que se associa para constituir o conhecimento. Um conhecimento é válido na medida em que derive de experiências sensíveis de que este se componha. Para Hume, apenas das percepções sensoriais e experienciais somos capazes de ter ideias e impressões do objecto a ser apreendido, ou seja, num plano mais amplo, do Conhecimento. Hume, chega a três conclusões: as ideias são a origem do nosso conhecimento; é através de associações que se constrói o conhecimento; a única forma de saber se a ideia corresponde à verdadeira representação da realidade é decompô-la em outras experiências sensíveis elementares das quais ela deriva. Das experiências resultam dois géneros de conhecimento: Impressões – sensações; Ideias – imagens das impressões sensoriais, produtos da imaginação. Por fim, se todo o conhecimento deriva da experiência, o Empirismo desliga-se do supra-sensível, das questões metafísicas, que os empiristas olham com cepticismo.

Analise a importância da associação de ideias e o fundamento do princípio de causalidade em Hume.

Da experiência advêm impressões, que são as unidades básicas do conhecimento, e a mente humana pode trabalhar associações dessas impressões. Quando o Racionalismo se prendia ao Gestaltismo (que entendia as coisas como um todo, uma estrutura organizada maior que a soma de partes), o Empirismo virou-se ao Associacionismo (que entende as partes e a sua soma como formando o todo). No Empirismo, entendem-se dois tipos de conhecimento: Conhecimento de Ideias – surge de construção de associações de ideias, memórias, conhecimentos lógicos, matemáticos, não resultam directamente de impressões, informação intuitiva, demonstrativamente certa, conhecimento tautológico; Conhecimento de Factos – surge do confronto de experiências, proposições verdadeiras posteriormente, conhecimento meramente hipotético, se entendida a experiência como particular.

Para associar ideias, Hume enumera três princípios: Semelhança, Contiguidade e Causalidade. “Uma pintura leva naturalmente os pensamentos para o original; a menção duma divisão faz inquirir sobre o restante edifício; pensando numa ferida, dificilmente nos abstemos da reflexão sobre a dor que a segue”. O princípio da Causalidade é pelo qual se prevê algo porque se repete uma experiência novamente, produto do hábito, desejo de transformação duma expectativa em realidade. Uma declaração acerca de dois objectos serem causa ou efeito tem de ser preservada em diversos exemplos em que sejam observadas. A vinculação entre causa e efeito decorre do sentimento de crença, não podendo ser tomado como inferência lógica e válida. Esta análise da causalidade resulta num cepticismo controlado.

Explique como Kant ultrapassa o impasse entre empirismo e racionalismo.

Kant, primeiro racionalista, ao descobrir em Hume o papel fundamental da experiência sensível, cria uma concepção intermédia entre a experimentação e a razão. Para Kant, não há conhecimento propriamente dito sem impressões sensíveis (adoptadas graças à faculdade da Sensibilidade, que depois são pensadas e associadas pela faculdade do Entendimento). A perspectiva de Kant concilia a razão e a experiência, simultaneamente aproximando as doutrinas racionalista e empirista e respondendo também ao cepticismo e evitando o dogmatismo.

Distinga realismo de idealismo.

O Realismo é uma corrente filosófica ligada ao mais próximo entendimento da realidade como ela é percepcionada, quando o Idealismo já a concebe como uma construção mental individual.

Caracterize o “senso comum” como modo específico de abordagem da realidade.

O Senso Comum é adaptativo, tratando-se de uma forma de compilar informações de forma utilitária. É a adaptação às situações concretas e à necessidade de viver individual e colectivamente. É uma abordagem ao conhecimento particular, vulgarmente usado no quotidiano, composto por hábitos ou relações de causalidade imediatas. É um modo simples, um conhecimento prático, espontâneo, imediato, baseado nos sentidos, subjectivo.

Apresente uma noção de ciência  e mostre como esta rompe com os dados do senso comum, entendido como um obstáculo epistemológico.

A noção de Conhecimento Científico implica rigor, universalidade, métodos. O Conhecimento Científico parte sempre almejando um pensamento colectivo, racional, experimental, crítico. É construído numa linguagem técnica, objectiva, para compreender, explicar e transformar a realidade. Analogamente, o Senso Comum é simplista, imperfeito, mesmo falacioso, por não ter nenhuma abordagem rigorosa à realidade, particularizando-se em matérias concretas do dia-a-dia, mesmo com o propósito único de viver o quotidiano adaptativamente. A ciência aspira a ultrapassar essa limitação e conseguir conhecimento verdadeiro, necessário, preciso, a que o Senso Comum não chega.