Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Valladolid, 10 de Setembro de 1951 – Visita ao Museu de escultura policromada. Uma espécie de manicómio teológico, onde cada internado se contorce na pedra ou na madeira benta do seu corpo. Que Espanha! Que gente! Estes diabos não são capazes de conceber uma dor sem trejeitos, uma fé sem cilícios, uma morte sem agonia, uma eternidade sem pesadelo. Um cadáver, aqui, tem que continuar a sofrer as mortificações da vida.

Teve dedo, quem escolheu Valladolid, coração de Castela, para montra duma arte assim tempestuosa e apaixonada. Nenhum outro cenário mais capaz de a tornar convincente. Junto do berço de Felipe II e à luz da fogueira do primeiro Auto-de-Fé, de todos os Cristos e Marias, que noutros lugares poderiam mostrar-nos um rosto sereno e misericordioso, têm de ser fatalmente patéticos sudários de aflição. Como fora possível que a sua mansa divindade judaica, semeada em terras ocidentais, se endemoninhasse de tal maneira?

Não sei porquê, é do lado dos figurantes do drama que eu vejo o espanto. Mais do que espelhos da nossa humanidade pecadora, lembram-me espectadores perplexos diante da inesperada revelação de certos comportamentos dela. E a grandeza de Berruguete, Hernandez e Juan de Judi consiste, a meu ver, nesta novidade: darem-nos uma religião onde os próprios deuses vivem aterrados.

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