Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Póvoa do Varzim, 26 de Agosto de 1951 – Uma tarde de toiros que em vez de me empolgar foi o rastilho de uma comlicada meditação relacionadora. Enquanto a meu lado o entusiasmo tinha fluxos e refluxos, como as ondas do mar que a dois passos se quebravam na areia grossa, descobria eu que a recta linha ibérica da angústia passa tanto por Antero como por Gallito. Coordenadas da mesma inquietação medular, um Soares dos Reis que se suicida ou um Manolete que põe como verónica diante dos cornos do toiro a própria alma, significam igual renúncia, igual entrega, igual atracção da morte. Mas enquanto que em casa dos nossos vizinhos toda a família colabora no desespero, aqui só os mais conscientes são capazes de o viver e de lhe dar o habitual e trágico remédio.

Versão atenuada dessa hora pessoal e colectiva de catarse, o nosso toureio exprime perfeitamente a pátria portuguesa, mediana e discreta. Cavaleiros de casaca e de camisa de bofes, cavalos bailarinos, matadores postiços e bois embolados.

Aceite o princípio, que reputo salutar, de se prolongar a tradição violenta da arena, era lógico supor que tudo se passasse segundo os ditames do instinto. E enquanto que do outro lado da fronteira permanece o dilema ou a fera ou o homem, nesta lírica praia ocidental a luta chega ao fim numa confraternização zoológica de enternecer. Depois de um abraço de reconciliação ao toiro, dado em nome do herói pelos seus forcados, as chocas vêm recolher pacatamente o marido zaragateiro.

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