Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Caldelas, 22 de Agosto de 1951 – Disse hoje a um historiador tendensioso que não se enfrenizasse tanto na destruição da grandeza moral de certas figuras históricas. Além de que nós próprios precisávamos delas assim como estão, o passado, que as construiu tais, lá tinha as suas razões. Perfeito ninguém é, já sabemos. Portanto, se um homem atravessou o seu tempo num halo de honradez e pureza, deixemo-lo na sua glória, intacto e modelar. Que pode lucrar um partido, uma classe ou a nação inteira com mais um safado no seu património? Cá por mim, gosto de viver na convicção de que nem todos os nossos antepassados saíam aos caminhos. O Egas Moniz com a corda da lealdade ao pescoço enternece-me e dá-me vontade de continuar a ser leal também. Sei quase de ciência certa que, bem espiolhada a vida do aio do nosso primeiro rei, uma ou outra fraqueza humana invalidaria muito da significação do acto que me empolga. Mas se foi o famoso rasgo que mais flagrantemente o definiu e o passou à posteridade, que vantagem teremos todos em denegri-lo? Cada ser humano tem duas vidas: a que se vê e a que não se vê. Mas cada ser histórico tem essas e ainda mais outra: a vida que continua depois da sua morte, e que é o somatório de quantas perfeições a sua exemplaridade motiva.

Em grau maior ou menor, os heróis do passado funcionam como entes lendários, carregados por nós de simbolismo, sem atingirem, contudo, a pureza das criações mitológicas. Mas na medida em que se aproximam dessa poética realidade – a única realidade que não tem discussão -, é que nos tocam, nos seduzem e nos entusiasmam. O Sepúlveda autêntico do naufrágio quinhentista, embora trágico, perde muito da sua grandeza ao lado da misérrima condenação do inventado Adamastor da Camões, que, por sua vez, empobrece também comparado com o desgraçado Prometeu amarrado à fraga e a ser rilhado do fígado trinta mil anos. De degrau em degrau, a vida tende para o mito. E quanto mais fabulosa, mais verdadeira. Por isso, sem desprimor para o esforço dos cabouqueiros dos factos e dos documentos, estremeço sempre diante das suas revisões. Lembram-me coveiros da justiça a exumar certezas da podridão dos cemitérios. Quanto mais convincente do que a decomposição dos adáveres não é a sua incorruptibilidade da fantasmas!

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