Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Coimbra, 24 de Julho de 1951 – Mensagem para “Encontros europeus de Poesia”, em Knoche.

Poetas:

O nosso congresso, a par de tantos outros que diariamente se realizam, lembra-me qualquer coisa se semelhante ao que seria uma reunião de feiticeiros numa das salas da Sorbonne. Uma espécie de ingénuo e temerário desafio de meia dúzia de crianças à sabedoria e às barbas duma Universidade de homens sisudos. Uma assembleia de lunáticos e quiméricos, no largo menos secreto dum mundo todo em silêncio, fechado sobre o positivismo negro da sua dor.

Por isso, compreende-se o escrúpulo do nosso muito querido organizador, Senhor Pierre-Louis Floquet, em designá-lo por este nome pomposo, propondo outro mais súbtil e discreto. Não tendo nós uma ciência a divulgar, uma política a defender, uma guerra a declarar, chamaríamos apenas encontro ao manso e fraterno convívio destes dias. Eu, porém, opto pelo nome solene que se pretendeu evitar, justamente para que os sábios e os homens sisudos verifiquem que as suas reuniões não resolveram os problemas do homem, e é preciso alargar a colaboração. Esgotados os argmentos ardilosos, os sofismas, as ameaças e as agressões, só resta à humanidade experimentar as armas da fantasia e os tratados poéticos.

Agónico à mesa redonda das conferências dos profissionais da ordem e do progresso, o mundo precisa que lhe dê carinho quem verdadeiramente o ama pela sua beleza gratuita, pela sua generosa condição de lugar onde se vive e respira. Ora se somos nós, justamente, esses enfermeiros de mãos leves e puras, capazes de colocar um penso astral no concreto desespero duma ferida, devemos ter a coragem de o afirmar, alto e bom som, para que todos o saibam e tenham esperança.

Porque é de esperança, eterna e sempre renovada esperança, a nossa lúdica presença na terra. No fundo do seu coração desiludido, atrás da ironia com que nos agride, a humanidade confia em nós. Ela sabe que só os poetas não a traíram através dos sécuos, imortalizando o que nela havia de mais generoso, de mais heróico, de mais santo e de mais devotado. Dando forma ao seu espanto, ritmo à sua angústia, leveza aos seus pesadelos. E sabendo-nos aqui, não a congeminar artimanhas, mas de alma lavada a cantar, embora publicamente possa rir-se e desautorizar-nos, secretamente há-de confiar. Ao fim e ao cabo, é num poema que desabrocham todas as suas vicissitudes. Sim, amigos: é num poema que, em último recurso, se condensa a história de cada homem, e, por alargamento, a história de todos os homens. É numa odisseia que se eterniza a inquietação de Ulisses e toda a nossa universal imortal inquietação. É num inferno que rimas que ardem todos os Bonifácios e todas as nossas degradações. E é num pacto de versos que acabam todos os Fautos e toda a nossa sabedoria.

Congresso, pois, de poetas, até para que seja mais clara em nós a consciência do que podemos e devemos, e a própria palavra nos comprometa com um juramento. Não simples convívio, mas um acto. Um acto de fé na poesia! Um compromisso público de que não a trairemos em nome de nenhuma tirania, de nenhuma urgência, de  nenhuma conveniência. De que morreremos por ela, se preciso for, por elas ser o que de mais cristalino o ouvido ouve e a vista vê. Por ela, juntar os homens e nunca os separar. Por ela ser o derradeiro pão do espírito. Por ela ser a úniva vida que não morre. Por ela ser a liberdade!

Porque não teremos agendas a discutir nem actas a assinar, mas apenas um papel de consciência – façamos desta presença colectiva uma afirmação inequívoca de amor e vitalidade. Digamos à Europa e ao mundo que estaremos sempre ao seu lado, insubornáveis oráculos de toda a esperança sem mácula. Que, depois de todas as linhas destroçadas, guardaremos ainda os tesouros da sua dignidade humana. E que os guardaremos sem armas, apenas fortalecidos na investidura mágica que recebemos da natureza – mãe generosa que nos ungiu menestréis da alegria de viver neste vale de lágrimas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s