Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Coimbra, 21 de Julho de 1951 – Representação da cena do Auto da Lusitânia em que Dinato e Berzebu rezam a engraçada ladainha. A assistência ria, ria, e eu também, claro. Mas roía-me cá por dentro uma pergunta: Porque seria que Gil Vicente não conseguiu fazer dos seus diabos senão pobres diabos? Tipos tradicionais, frascários e lorpas que  povo engana sem custo, e que sem custo enganam também o povo? Títeres rudimentares, com artimanhas parolas, sempre de cornos e de rabo à mostra? Já desde a Bíblia que Lúcifer é o mais formoso dos Anjos e, naturalmente, o mais inteligente, corajoso e subtil. Assim o entenderam Milton e Goethe, que lhe deram a grandeza eterna do próprio espírito em protesto. Não se revolta contra Deus um desgraçado Mafarrico de bigodes e guizos. Ergue-se a desafiar o Criador a mais ambiciosa das suas criaturas. Por isso, tanto o inglês como o alemão cantaram e movimentaram um Satã que começa por combater Deus no seu próprio terreno, e que, derrotado, se alimenta da esperança da desforra, num ódio imortal, que não cansa. Homens com aspirações divinas, sabiam bem que essa coragem perpétua que se não rende, que se não curva, cria nas almas uma instintiva adesão, uma simpatia de cárcere. Que é ela o grande alimento do pecado. Impulso movimentado da inércia que renunciou. Ser do partido do Diabo é, no fundo, aspirar à mais alta das perfeições. À super-perfeição. Permanente vertigem à beira do abismo, a lição que os dois poetas nos deixaram é a dum Inimigo muito mais aliciante do que o melhor Amigo.

Ora Gil Vicente fica-se sempre pela farsa rasteira dum demónio sem demonismo. Daí uns diabos portugueses sempre iguais, sempre atraídos pelos mesmos pecados e repelidos pelos mesmos exorcismos.

Fino observador, o nosso dramaturgo colheu do natural figuras vivas, pitorescas e permanentes. Mas, fraco congeminador, não foi capaz de conceber a fundura de cada tentação. Crente ortodoxo, com as portas do Inferno trancadas pela fé tradicional, nem ao menos formulou esta pergunta simples: Porque será que o mal é tão sedutor? Na resposta que lhe desse a experiência e a meditação haveria certamente matéria para criações mais amplas e significativas. A problemática do bem e do mal é por assim dizer o lastro do drama humano. Na via-sacra da vida cada ser debate-se a todo o momento entre dois apelos. Dum lado a submissão, com todas as recompensas; do outro a insubordinação, com os seus perigos inerentes, Oficialmente triunfa sempre o Anjo da Guarda, que representa a ordem constituída, o equilíbrio social, a paz; mas é a guerra que vive nos corações insatisfeitos. A guerra a toda a permanência, a toda a rotina, a toda a subordinação. Tudo quanto o homem descobre é fruto dessa revolta contínua, levada a cabo no laboratório, na oficina, na cátedra ou à banca de trabalho. Com proteica e devotada obstinação, desde que o mundo é mundo que o génio do mal nos acompanha. E é nesse Satanás movediço, polimorfo, facetado, que reside a chave das grandes obras da humanidade. O espírito de espada preta, de sacrílegas aventuras, de imprevistas fascinações, esse é que tentou verdadeiramente a Ásia e depois a Europa. A Judeia põe, nada mais, nada menos do que o mundo aos pés de Cristo; e a Grécia opõe à serenidade de Júpiter a inquietação de Prometeu.

Pela maneira como um povo enriquece ou empobrece os símbolos pode medir-se o grau da sua valência intelectual. Ora em Portugal é isto que se vê. Porque nunca passamos dum Anfitrião ao pé da letra, duma Antígona ao pé da letra e dum Satanás ao pé da letra – e sempre ao pé da letra canónica -, escapou-nos das mãos o corpo heterodoxo da tragédia. Católicos optimistas, que poderíamos nós fazer senão farsas comezinhas onde o simples sinal da cruz arreda a tempestade mais iminente? A desgraça é que o mesmo gesto afastou também para longe as grandes obras que não fossem de pura caridade…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s