Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Sevilha, 18 de Abril de 1951 – Os artistas hão-de ser sempre uns eternos desmancha-prazeres! Com a mania de arredar a consciência humana das tentações do efémero, estragam tudo. Que necessidade tinha o velho Valdez Leal de marcar a carne sensual desta terra com o ferro em brasa dum anjo invisível, o fiel da balança perpendicular ao céu; e em cada prato o simbólico carrego que há-de apodrecer: a carne dos quadrúpedes e o espírito dos bípedes. Ni mas, ni menos! E como demonstração concreta, ao lado, a pompa dum bispo e a grandeza dum nobre à mercê dos guzanos.

Atormentado certamente pela volúpia do serralho andaluz, o pintor tocou a rebate com a devotada coragem dum Savonarola de cavalete. Veissem ao menos a fundura do abismo! Passado o breve momento da soberba e terrena ilusão, a morte amadurece dos mesmos livores os frutos de casta e os de cepa rafeira…

Mas creio que ninguém o ouviu. Durante estes dias, pelo menos, só a palidez mirrada duma velha monja medita melancolicamente na lição purificadora do quadro. Ela, apenas. O resto de Sevilha anda na Feira a repetir o pecado de acreditar na vida.

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