Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Filosofia Renascentista III

As belas-letras tomaram progressivamente Paris, Roterdão e Londres. Contudo, no Norte os professores ainda preferem traduções falaciosas e súmulas aos originais. Assim, a primeira tarefa dos primeiros humanistas franceses passou pela correcção e reedição – Gaugin, Budé, Lefèvre d’Etaples. Este último, como tentava aliar o humanismo ao evangelho, passa a ser parte da “Pré-Reforma”, como lhe chama Renaudet.

Enquanto em Itália se pensa a nova cosmologia antropocentrista, no Norte Europeu pensa-se o Homem primeiro como Cristão, moral e eticamente. O humanismo e a Reforma convergem na sua primeira crítica à corrupção da Irgeja Católica e na sua prontidão a estudar clássicos a adoptá-los de novo.

Contudo, entre 1520 e 25, quebram-se os cristãos europeus entre o catolicismo e o protestantismo. E Lutero e Erasmus opõem-se sobre a matéria do livre arbítrio – Lutero sugere notoriamente mais limites e austeridade na sua abordagem, a par da tempestuosidade que se passara a viver naqueles tempos.

As belas-letras tomaram progressivamente Paris, Roterdão e Londres. Contudo, no Norte os professores ainda preferem traduções falaciosas e súmulas aos originais. Assim, a primeira tarefa dos primeiros humanistas franceses passou pela correcção e reedição – Gaugin, Budé, Lefèvre d’Etaples. Este último, como tentava aliar o humanismo ao evangelho, passa a ser parte da “Pré-Reforma”, como lhe chama Renaudet.

Erasmus, personagem mais marcante deste tempo, mesclou a sua vida, obra e viagens – infatigável autor cosmopolita, este acha uma concepção religiosa muito mais permitiva, defendendo ferozmente o necessário livre-arbítrio, fiel ao bom senso e a justo equilíbrio: “Quando ouço dizer que o mérito humano é tão nulo que todas as próprias obras das pessoas de bem são dos pecadores, que s nossa vontade não tem mais poder que a argila nas mãos do oleiro, que tudo o que fazemos e queremos resulta duma necessidade absoluta, o meu espírito experimenta com isso numerosas inquietações”; “A graça com efeito não opera tanto em nós pelo livre-arbítrio como sobre o livre-arbítrio, da mesma maneira que um oleiro trabalha sobre o barro e não pelo barro”.

Lutero, afixando as suas teses à porta da catedral, inicia não só uma nova questão cultural, mas toda uma reestruturação da fé e sociedade – a problemática de Lutero chega a abordar o estatuto do Homem, o sentido da acção e as relações do indivíduo e da cidade. Enquanto o humanismo continuava um luxo aristocrático e não um ideal massificado, a Reforma chega logo à consciência dos povos. Lutero censura a complacência humanista para com filosofias pagãs: “Aquele que quer sem perigo filosofar como Aristóteles, é preciso que se tenha tornado bem louco em Cristo. Assim como não se usa bem do mal da libido, a não ser que se seja casado, assim também ninguém filosofa bem a não ser que seja louco, quer dizer, cristão.” Só a fé salva – o problema da salvação é primordial: “O homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei… David do mesmo modo celebra a felicidade daquele a quem Deus confere a justiça independentemente das suas obras. Felizes aqueles cujas transgressões são perdoadas e cujos pecados são encobertos. Feliz aquele a quem Deus não imputa o seu pecado”, esta citação de São Paulo inspirará a Reforma, invalidando as mediações católicas entre Deus e o homem pecador.

“O cristão é um livre senhor de todas as coisas a não está submetido a ninguém. Um cristão é um servo obrigado em todas as coisas e está submetido a toda a gente”, é como Lutero vai definir a fé, um oposição do corpo e alma. “Mas quando ela (alma) tem a palavra, não precisa de mais nada, encontra pelo contrário na palavra a sua suficiência, o seu alimento, a sua alegria, a sua paz…” – à salvação conquistada pelas obras corporais, Lutero opõe a salvação dada pela acção das palavras no interior da alma. São estes os princípios que abalam a anterior ordem medieval e humanista. O sacerdote perde a justificação teológica de superioridade face ao laico.

Os Anabaptistas, reformistas extremistas, conduzidos pelo visionário temperamental Munzel, fizeram várias revoltas, procurando mudanças drásticas numa doutrina de Lutero especialmente radicalizada, algures entre profetismo e comunismo. Estes recusam a própria ideia de baptismo, como submissão cega a uma religião e pátria que os exploram. Mas já a comunhão era um símbolo da união da comunidade, da força popular. Munzel dirigia-se assim: “Pregar um doce Cristo pertencente ao mundo da carne é o veneno mais poderoso que jamais foi dado às ovelhas de Cristo. Quem não quer Cristo amargo morrerá por se ter farto de mel”; “Aquele que não arrisca a sua cabeça não está seguro de possuir fé”. A este movimento seguiu-se uma repressão feroz dos príncipes. Por sua vez, o anabaptismo pacífico começado em Zurique sobreviveu, particularmente sob a guia de Meno.

Calvin, da segunda geração da Reforma, surge quando o luteranismo está a perder força. Apesar de cedo parecer vir a tornar-se humanista, junta-se aos reformistas, e, como Lutero, evita as responsabilidades políticas, contudo, chega a formar parte da organização de Genebra. A sua doutrina religiosa em muito correspondia com a de Lutero, todavia se a justificação pela fé tem um significado, se as obras embora necessárias importam pouco, a economia da salvação remete primeiro à liberdade do criador – Calvin persistiu com as ideias de predestinação: “Se não podemos indicar nenhuma outra razão para que Deus aceite os seus eleitos, senão por aquilo que lhe agrada, não teremos também nenhuma razão para que ele rejeite os outros, senão a sua vontade”. Calvin quer tentar abolir a incomensurabilidade divina. No começo da sua carreira como reformador de Genebra, opôs-se à organização clerical, e para não se deter nas mesmas crises do luteranismo e do anabaptismo, marcou o lugar da Igreja, com um ordem espiritual própria, de que religiosos e civis partilham abertamente, contrariamente à Igreja Católica, escondida em instituições distantes.

Para além da dimensão religiosa, a Reforma também transformou o pensamento e filosofia colectivos. É o primeiro ataque ao sincretismo (paganismo e cristianismo) de Ficino e Mirandola. A Reforma opôs a meditação sobre a Redenção ao humanismo antropocêntrico, em participação cm uma comunidade, uma Cidade Santa na terra inteira.

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