Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Coimbra, 20 de Fevereiro de 1951 – O que o demónio destes nossos intelectuais não conseguem ver é a relatividade do que fazem, a escala a que é preciso reduzir o seu valor. Esquecem-se de que, mesmo quando são bons, o são apenas aqui, sem conforto, isolados, vistos com a indulgência com que se vêem aqueles artesãos perdidos nas serras, que tecem um burel de aconchego onde só há fragas e neve.

Na ânsia de nos valorizarmos, cegamo-nos. E é uma filosofia portuguesa que surge milagrosamente do nada, uma arquitectura própria que ninguém vê, uma pintura que abarrota os museus e os não enche. Ora é compreensível que eu tenha um apego sentimental à capelinha da aldeia onde nasci; objectivamente não posso deixar de verificar que se trata duma construção ingénua e simples, rudimentar, com a arte a ressonar ainda a espessura da pedra.

Sei bem que numa pátria pequena é preciso valorizar as suas pequenas realidades. Para que tenhamos uma geografia como toda a gente, que remédio senão impingir nas escolas o Ceira e o Sabor, a Serra da Boa Viagem e a de Montefigo, e fazer finca-pé nos dois mil metros mal medidos da Estrela! Mas aí o pecado é venial, porque os ribeiros e os outeiros existem, e não se julgam o Amazonas ou o Himalaia. O que não acontece, infelizmente, no plano dos valores do espírito. Aí todos nos consideramos a última maravilha do mundo. Todos atravessamos as fronteiras diariamente… em imaginação. Porque um amigo estrangeiro, a quem oferecemos um almoço em nossa casa ou aturamos num café, nos traduz um poema, nos cita numa revista ou nos faz uma crítica amável a pagar a hospitalidade, aqui del-Rei que temos uma projecção universal! E nada mais falso. destituídas de qualquer interesse verdadeiramente significativo, as nossas obras são casos comezinhos, regionais, pitorescos, sem qualquer acção na marcha da cultura. Como poderíamos nós aspirar a tanto, se nem sequer somos capazes de modificar o ritmo da caranguejola espiritual do nosso próprio país!

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