Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Aristides de Sousa Mendes

Aristides de Sousa Mendes

“Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar.”[1]

Por entre os caóticos tempos da Primeira e Segunda Grandes Guerras, várias personalidades se destacaram por mostrarem uma particular sensibilidade face aos horrores vividos. Uma destas foi Aristides de Sousa. Este salvou mais de 30 mil pessoas da morte certa, ao emitir vistos que lhes permitiam passar por Portugal para daí partirem para nações onde já não fossem perseguidas, como eram na Europa, e, assim, destruindo a sua carreira de diplomata por ter desobedecido a ordens directas do Presidente do Concelho Oliveira de Salazar.

Aristides nasceu a 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato, aldeia do distrito de Viseu. Tirou a licenciatura de Direito, em Coimbra, com o irmão gémeo César. Foi alguns anos professor, mas acabou por seguir a carreira diplomática, bem como o irmão. Em 1908, casou com Maria Angelina Coelho de Sousa Mendes. Tiveram, ao todo, 14 filhos. Foi nomeado cônsul de Portugal em várias terras (Guiana Inglesa, Moçambique, Quénia, Brasil…) – isto ainda durante o tempo dos reis, e as suas convicções monárquicas acabaram por lhe custar, temporariamente, a sua carreira. Foi, em 1926, nomeado cônsul em Vigo, na Galiza, e em 1929, na Antuérpia, Bélgica.

Em 1938, António de Oliveira Salazar nomeia-o cônsul em Bordéus, França meridional. Um ano depois, Hitler invadiu a Polónia, iniciando a II Grande Guerra. A isto seguiu-se a invasão dos Países Baixos e da França.

Salazar fez de Portugal um país neutral, mantendo assim fortes relações comerciais com a Alemanha Nazi e mantendo o seu “estatuto” de aliado da Inglaterra.

Entretanto, Aristides acolhia refugiados no consulado de Bordéus, tantos que todos os quartos estavam totalmente preenchidos. *

Em 1939, o cônsul enviou a Portugal um pedido para passar vistos aos refugiados na embaixada, para que estes pudessem migrar a partir de Portugal para a América. Tendo a guerra começado, Portugal tornou-se num ponto de fuga para quem escapasse do conflito, maioritariamente, judeus que fugiam das tropas nazi, por isso Salazar, que pretendia manter as suas boas relações com Hitler, emitiu uma ordem geral para que não se passassem mais vistos, especialmente a russos, checos, húngaros ou judeus.

Entre os refugiados estavam a Duquesa do Luxemburgo, o Imperador da Áustria e a sua mãe, rabinos e outras pessoas de vastas fortunas, além de enumeras famílias.

Aristides de Sousa Mendes, enfrentando as ordens de Salazar (entregues através da circular 14), não hesitou em passar vistos a todos. Em 17 de Junho, Aristides abriu as portas do consulado a todos os que precisassem de refúgio. Em três dias, o cônsul emitiu mais de 30 mil vistos de trânsito, chegando-se a usar qualquer pedaço de papel onde coubesse a assinatura de Aristides e o carimbo do consulado. Poucos dias depois, as suas acções chegaram aos ouvidos do Governo Português, e a este foi ordenado que regressasse a Portugal. Aristides foi, mas ainda assim, levou consigo algumas centenas de pessoas. Pelo caminho, passou ainda mais vistos. O General Franco havia ordenado que se fechassem as fronteiras, e, por isso, Aristides teve de se apressar a chegar a Portugal, instalando-se e às centenas de refugiados no seu palacete, em Cabanas de Viriato. **

Aristides foi alvo de um processo disciplinar, no qual tentou defender-se a si próprio o melhor possível. Como consequência, Aristides perdeu a sua carreira diplomática, a sua reforma e o seu estatuto social. ***

Sem poder exercer qualquer carreira, Aristides e a sua família numerosa passaram grandes dificuldades financeiras.

Ao saber disto, a Comunidade Judaica, em Lisboa, indignada com a situação do homem a quem devia muitas vidas, passou a providenciar-lhe uma ajuda monetária mensal e a possibilidade de comer na sua cantina.

Com a ajuda de algumas das famílias que ajudara, todos os filhos de Aristides acabaram por emigrar. Sebastião e Fernando, dois desses filhos, acabaram por se juntar ao exército americano e participar no desembarque da Normandia.

Quando a guerra acabara, Aristides de Sousa não desistiu e tentar voltar a trabalhar, enviando cartas ao Presidente da República e a deputados, alegando inconstitucionalidade daquela punição.

«Em resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, anti neutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente “contra a Nação”.»

Esta sua acção não surtiu qualquer efeito.

A 16 de Agosto de 1948, faleceu Angelina de Sousa Mendes, com 59 anos, após uma hemorragia cerebral que a deixara vários meses em coma.

Sozinho, Aristides viveu algum tempo sozinho, até que acabou por sofrer um acidente vascular cerebral. Foi levado para o Hospital da Ordem Terceira. Não chegou a sobreviver aos tratamentos, falecendo a 3 de Abril de1954. O seu corpo encontra-se no cemitério de Cabanas de Viriato, onde continua a ser visitado por muitos.

Recebeu muitas honras pelas suas acções humanitárias, entre as quais a mais alta honra que pode conceder o Estado de Israel, nomeadamente, a medalha de “Justo entre as Nações”. É o único português que obteve esta honra.

Notas

*Num documentário em homenagem a este homem, o seu neto, Álvaro de Sousa Mendes, lembra a história de um rapazinho, com cerca de oito anos de idade, que fora acolhido no quarto dos seus avós, pois já não havia mais espaço no consulado. Os pais do rapaz, antes de o enviarem para fugir do conflito que se dava, deram-lhe um saquinho de diamantes, a que ele chamava de “pedrinhas”. Os pais disseram-lhe para ele dar uma “pedrinha” sempre que precisasse de comer ou de dormir. Este ofereceu, na sua última noite no consulado, uma “pedrinha” a Aristides de Sousa, que, claro, a recusou. No dia seguinte, o rapazinho foi enviado para os Estados Unidos com uma “família de acolhimento”. Outras pessoas tentaram oferecer alguma riqueza a Aristides de Sousa Mendes, mas este sempre se recusou a aceitar.

**Entre os refugiados, estavam ministros belgas, que ,da casa de Aristides, formaram um governo belga e fizeram valer os seus direitos como nação independente.

***Também o seu irmão César sofreu represálias. Em Agosto de 1940, foi mandado regressar a Portugal. Passou à disponibilidade, e, durante 5 anos, a sua carreira ficou congelada, até que foi colocado como representante de Portugal no México e em Cuba. Depois de ter passado por mais dois postos, reformou-se, em 1950.


[1] http://www.aristidesdesousamendes.web.pt/ – Este é o endereço electrónico da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

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