Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Diário VI

Coimbra, 19 de Fevereiro de 1951 – Morreu André Gide. Em paz com a sua fisiologia e confortado com o prémio Nobel, disse adeus a este mundo e foi experimentar as nourritures celestes. Homem de sorte, partiu justamente quando era preciso partir. Mais alguns anos de velhice, e seria a ruína mental e social. Passaria a sobreviver-se e a sentir a hostilidade dum tempo onde já mal cabia. Assim, não. Assim, foram oitenta e quatro anos em cheio, com todos os acepipes da vida e da glória. Oitenta e quatro anos que são o retrato intelectual e moral duma época. Nas literaturas actuais outras criações haverá mais ricas que as suas – quer pela substância, quer pela invenção. Nenhuma mais significativa. Obra falhada, impotente, sem génio, produziu-a uma cultura que talvez esteja no fim, esgotada de tanto exigir do entendimento, depois de verificar que se lhe cansara a imaginação. Mas por isso mesmo, por testemunhar esse beco sem saída consciente e trágico, poucas terão tido ais leitores devotados e desesperados. A essa obra corrosiva e catártica, juntou André Gide a aventura duma existência humana que, não sendo exemplar, foi um exemplo invasor. E eis como num só homem se estampou a verónica ética e mental do meio-século.

Personalidade em permanente representação, que pôde gastar os longos anos da vida a interrogar sem a nada responder, há muito já que as regalias de que gozava eram uma espécie de desafio ao sofrimento e à submissão de milhões de condenados. Almofadado pela riqueza pessoal e pelas liberdades duma pátria que vai cobrindo de tolerância complacente os filhos que a celebrizam, as dores do mundo pouco ou nada lhe doíam. E mesmo quando protestava, a indignação não irrompia das veras da alma. Falso moedeiro da moral, não se encontra nos seus livros a autenticidade dum oiro de lei cunhado com o ferro em brasa do desespero lancinante. Não. As efígies são mutiladas conforme as necessidades do autor. E o futuro não deixará de pedir-lhe contas disso. Uma impiedosa luz rasante decidirá em última análise se tudo nele foi fatalidade ou apenas conveniência. Desfibrado o problema da sua decantada sinceridade, confrontado o Journal com outros diários alheios guardados ainda nas gavetas, ouvidos os testemunhos indiscretos até agora temerosos da reacção do Mestre, um Gide menos intangível surgirá certamente diante de nós. A mudez da própria esposa o há-de acusar do túmulo. E aquilo que em qualquer artista não teria importância, por ser assunto do seu foro particular, em Gide pesará muita na balança do juízo final, justamente porque a matéria do que escreveu é em grande parte um aproveitamento literário da sua vida privada. O uso que fez de ertas intimidades só lhe poderia ser perdoado em nome de uma catarse de confissão. Tudo depende da verdade dos factos contados pelo pecador…

Entroncado na linha tortuosa de Sade, Gide, servindo-se da anarquia do momento, abusou, como tantos têm feito, da sua liberdade. E o resultado final foram obras de anomalia, contra natura, erguidas sobre a areia movediça dum egoísmo caprichoso. Alissa é figura castrada pelo próprio autor, incapaz de a ajudar a cumprir o seu legítimo destino de mulher. Uma vez que o galã, por inversão inconfessada, não podia ir até ao fim, que remédio senão falsificá-la, sobrecarregando-lhe a personalidade de complexos, cada qual o mais rebuscado e menos convincente! Proust, com outra finura, embora insincero também, soube ver que só uma Albertina de carne e osso tornaria aceitáveis e comunicativos os dramas dum rapaz enamorado e ciumento. E como bom psicólogo que era, no lugar do amante masculino dos seus vícios pôs o nome e a feminilidade aliciante da rapariga.

Teratológicos, os heróis modernos não dão esperanças de duração. As personagens de Sartre são teorias aplicadas a carcaças humanas. E foi Gide que começou a impor tais heróis, culminando naquele arbitrário Lafcádio, autor do crime gratuito, a perversão das perversões, Por isso o seu nome ficará na história do nosso tempo como um semáforo, de luz vermelha permanentemente acesa. Ao mesmo tempo tentação contínua e contínuo sinal de perigo.

De qualquer modo, uma memória para a eternidade temporal – a nossa – roer de seu vagar. Se a humanidade teve este período negro de inquieta lucidez, de egoísmo individual, de comportamento ambíguo, de requintada maceração e de despudor soalheiro, que remédio senão rever-se no homem que a incarnou e nos livros que ele escreveu! De resto, tanto o homem como os livros são de estilo impecável. Lá nisso, soube Gide atingir o primeiro lugar. Poucas vezes terás surgido no palco do mundo actor tão consumado a interpretar-se, e será difícil desencantar páginas mais pacientes e calculadas do que as suas. É mesmo por essa razão, por tudo nele, vida e labor, se conjugar harmoniosamente, e nos ser legado numa arrumação perfeita – retoques sobre retoques a cada confidência, não vá o leitor enganar-se -, que é preciso desconfiar. Só o artifício gera perfeições assim.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s