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Filosofia Renascentista II

No século XV, na encruzilhada entre a Idade Média e o Renascimento, Nicolau de Cusa é um dos homens mais geniais, no pensamento sistemático, domínio linguístico, no próprio estilo de vida.

Nascido Nicolau Krebs, faz estudos em Deventer, e em Itália cria uma forte amizade com o professor, Toscanelli. Ordenado homem de religião, começa uma grande carreira erudita. Serve fielmente a Igreja Católica, apoiando suas reformas. A sua principal obra, “A Douta Ignorância“, de 1440, é uma afirmação cosmológica muito original – aristotélica, com pretensões de inovar do pensamento medieval.

Entre o finito e o infinito, não há nenhuma proporção.” Assim o Homem admite nada compreender do infinito, mas da sua ignorância não passa a vigorar um pessimismo, antes o empenho de uma aproximação analógica a essa compreensão. Nicolau estabelece a analogia com Matemática: a divisão infinita dos lados de um polígono inscrito num círculo pode fazer o “recto” parecer “curvo” aos olhos humanos – um processo ingénuo, mas pelo qual se mostra como uma passagem ao limite aproxima contrários. Do mesmo modo, um pião girando muito rápido parece imóvel.

Assim, no seu pensamento metafísico, o mínimo absoluto e o máximo absoluto coincidem. Em Deus, não existem oposições nem diferenças, como no mundo finito. Deus, infinito, faz nulos o princípio da não-contradição e todos os outros da lógica. Assim Deus é coincidência de contrários“.

Nicolau de Cusa mostra a inacessibilidade de Deus, e a sua constante presença. Para ele, o múltiplo não é abandonado no último do ser, porque o um supremo está sempre presente no finito. Nicolau exclui anteriores filosofias de emanação por uma de reflexão sobre unidade, e a unidade absolutamente simples, Deus, só é apreendida conjecturalmente por processos que nunca esgotam a sua infinidade. Assim, Nicolau faz a lógica aristotélica aplicar-se somente ao finito.

Nas suas reflexões, Nicolau concebe dois tipos de infinito: o negativo, que é Deus, é tudo o que pode ser, escapa ao nosso entendimento; e o privativo, que é Universo, não é tudo o que pode ser, cada uma das suas partes é finita. É assim que Nicolau sugere o Universo como infinito indefinido do qual a Terra não pode ser o centro.

Fora de Deus, não existem verdades absolutas, apenas parciais. Isto reflecte o pensamento simultaneamente conciliador, contemporâneo da queda de Constantinopla face aos Turcos. Nicolau diverte-se ao fazer dialogar um italiano, um grego, um árabe e um budista, fazendo tirar desse diálogo a conclusão de um Deus Único existir para todos os Homens.

O seu pensamento inovador não teve impacto senão um século passado, com a redescoberta dos seus trabalhos por outros, como Marsilio Ficino. O pensamento deste homem já não foi muito original. Este era marcadamente platónico, e um tradutor infatigável, fazia o seu trabalho rodar sobre três grandes temas: a grandeza do Homem, a hierarquia do Cosmos, o lugar do Hermetismo.

A discussão do Homem de Ficino já não é a da liberdade e da inserção na vida civil, como os humanistas que o precedem, mas antes a da excelência da actividade humana, que permanece incompreensível sem atribuir um lugar central à alma imortal, contra o pensamento epicurista.

A dignidade humana afirma-se na capacidade de determinar o seu próprio lugar na hierarquia dos seres. A liberdade faz o Homem, a escolha entre o vício ou a virtude fá-lo porco ou semideus. E, nisto, a alma participa, ontologicamente, tanto do mundo inteligível de Deus e dos anjos, como do sensível, da qualidade e da matéria. Sobre isto, Ficino acha a alma, portanto, divisível, quando ao encontro da luz – a alma parte-se entre ambas as dimensões inteligível e sensível, e isto evidencia no seu “Comentário ao Banquete de Platão“. Ficino preocupa-se igualmente com o corpo sensível, com o papel de regimes sobre o corpo, com o papel da imaginação nas doenças, com as condições do equilíbrio, da saúde. Crê na Astrologia e na influência do amuletos sobre os poderes astrais. “Imensa é a riqueza da inteligência, que, cada vez que cobiça os preciosos tesouros de Deus e da natureza, os tira não das entranhas da Terra, mas do seu próprio seio.” O Homem é um demiurgo (“arquitecto”) semidivino : “Portanto, visto que o Homem observou a ordem dos movimentos dos Céus,, a sua progressão e as suas proporções, como poderia negar-se que ele possui quase o mesmo génio que o autor dos Céus e que ele poderia, numa certa medida, criar Céus, se encontrasse instrumentos e uma matéria celeste, visto que ele os cria agora duma outra maneira, evidentemente, mas segundo um plano semelhante.”

Ficino resume na sua doutrina a de Platão: o culto de Deus e a imortalidade da alma. Ficino substitui a indagação medieval “Como conceber as relações entre a razão e a revelação?” por “Que deve ser o Homem para que, de Platão a Cristo, passando po Pitágoras e Hermes Trismegisto, uma mesma interrogação se lhe imponha?” Ficino responde: “Um ser quase divino.” A morte e o pecado tomam parte secundária em prol da actividade humana, que justifica a sua dignidade.

Estes dois espíritos opostos tiveram uma mesma preocupação – a reforma das almas e da Igreja. Génio polivalente, Pivo della Mirandola sintetiza as aspirações e ambições do sábio renascentista. Erudito hebraico, esperava estabelecer a concordância entre as religiões judaica e cristã, reinterpretando a última através da Cabala. “Não há ciência que nos dê mais certeza da divindade de Cristo que a magia da Cabala.” Pico propunha visões religiosas místicas, distinguindo a magia lícita, natural, e a diabólica. Mas critica a Astrologia, em nome da liberdade humana de ditames fatais do Destino.

Ficino e Mirandola foram educadores da Europa, comentados por Thomas Moore, Erasmus, Montaigne

Contudo, Savonarola vai reflectir uma outra atitude deste tempo: um espírito oposto ao humanismo, apostólico, medieval. A influência do espírito profético de Savonarola foi terrível, apelando à loucura de milhares de adultos e crianças, que denunciavam e puniam os impuros, ouviam os seus sermões e queimavam obras nas Fogueiras das Vaidades. A escala do domínio de Savonarola foi tal que partidários dos Medici e o próprio Papado conspiraram e o queimaram vivo. Os seus discursos de natureza social e teológica fazem lembrar o tom de Lutero, veemente, violento. Savonarola batia-se pelo regresso à velha virtude das Trevas, da Florença republicana, contra a corrupção das famílias abastadas. Reformista ou retardatário?

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