Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Filosofia Renascentista I

“Deus imortal, que século vejo abrir-se diante de nós! Como gostaria de rejuvenescer”, Erasmo a Budé numa carta de 1517.

No Renascimento, vive-se um enorme entusiasmo cultural, despontado desde o século XIII. Contra a cultura identificada como bárbara insurgiram-se Petrarca e os humanistas e, em última instância, toda a Europa. A ordem e a racionalidade opõem-se à abundância de formas, ao valor individual e às múltiplas verdades.

O homem do Renascimento inventa-se das tradições clássicas greco-romanas e do pensamento medieval – ruptura e continuidade mesclam-se intrinsecamente. Enquanto muitos citam a Antiguidade, como autênticos sofístas/doutores da Ars Memoriae, génios rompem com novidades, como Leonardo da Vinci.

Leonardo admite nos seus Cadernos a consciência de ser menosprezado no meio cultural da época por não ser imediatamente letrado como os seus pares: ” Estúpida raça… dirão que a minha ignorância das letras me impede de exprimir sobre os assuntos que quero tratar. Mas esses assuntos, para serem expostos, requerem mais a experiência que a palavra de outrem.”

Os medievais sublinham com horror a espontaneadade do pensamento renascentista, que para seu pesar, não pode ser travado. O rigor e clareza teológicos de antes são substituídos pela libertação humanista.

A natureza brota na sua riqueza diversificada universal, e à sua imagem, a filosofia projecta-se em novos níveis de reflexão: Qual o lugar do Homem na Natureza? Qual o poder do amor? O papel dos astros? A imortalidade da alma?

O Renascimento liga-se ao esoterismo prontamente – Pico della Mirandola opõe a magia à astrologia, na medida em que a primeira salvaguarda a liberdade do Homem e a outra submete-o a ditames fatais do destino. O misticismo e o naturalismo confundem-se num sincretismo que desembaraça o homem renascentista da reverência medieval pela ordem.

Simultaneamente, o platonismo, popular na Europa, impele a crença numa virtuosa ascensão espiritual a alcançar, e num direito divino do Homem que advém da hipótese dessa realização – um antropocentrismo estabelece o Homem como dominador do Cosmos.

Contornam-se as leis da lógica terminista e tomam-se liberdades escolásticas que abrem novas vias do conhecimento. Assim, nem o Renascimento é marcadamente moderno, nem arcaico – Erasmo apoia a liberdade do Homem para em vida se aproximar de anjo semi-divino ou animal sem espiritualidade, mas já Martinho Lutero opõe-se a ele, sugerindo que esta filosofia paganiza o Homem, e, portanto, condenando-a.

No prisma de Erasmo, o Homem serve-se do cosmos e dos seus elementos; o cosmos serve o Homem por este ser o único que dele usufrui, mas que também o embeleza – como é glorioso que o Homem are a terra, construa cidades e abra canais de irrigação, nas palavras de Platão, n’ “A República”.

Pela Idade Média, foi marcante a ligação entre o pensamento cristão e o platónico, feita por escolásticos como Boécio ou Santo Agostinho. Este humanismo é levado por Petrarca numa rota de colisão com o naturalismo: “Para que serve conhecer a natureza dos animais selvagens, das aves, dos peixes, das serpentes, e ignorar, ou negligenciar a natureza do homem, a razão pela qual nascemos, donde vimos e para onde vamos?” Petrarca almeja um humanismo cristão interior.

Coluccio Salutati sugere que a salvação divina não está na solidão dos conventos, mas na obra das cidades terrestres, nos círculos da família e da política. O mais divino trabalho é o dos direitos e deveres do indivíduo cidadão, da sociedade, do bem comum. Leon Battista Alberti acha a cultura, a vida e a religião indissociáveis.

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