Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

Amor Puro no Renascimento

Este é um breve apontamento sobre três distintas formas de entender o Amor Puro: Dante, Petrarca e Camões, eternos apaixonados literários.

Cânone dos romances cavaleirescos e cantigas medievais:

Os Estágios do Amor Cortês:

– Atracção do cavaleiro pela senhora, normalmente “à primeira vista”

– Adoração distante secreta da senhora

– Declaração de apaixonada devoção do cavaleiro

– Virtuosa rejeição pela senhora

– Votos de eterna virtude e fidelidade

– Gemidos desesperados e outras manifestações físicas fatigantes do amor não consumado

– Valorosos feitos heróicos do cavaleiro conquistam de vez o coração da senhora

– O amor é secretamente consumado

– Ambos vivem a sua nova vida amorosa em segredo

Depois da Idade Média, dá-se o alvorecer do Renascimento, devido a três grandes impulsionadores dessa nova forma de reflexão crítica, desse novo espírito humanista e classicista: Boccaccio, Dante e Petrarca.

Dante Alighieri

Dante Alighieri

Viveu entre 1265 e 1321, tendo sido escritor florentino da Idade Média tardia. Apaixonou-se por Beatrice Portinari, que cortejou cordialmente. Contudo, Beatrice morreu em 1290, e o luto de Dante, à semelhança mais tarde de Petrarca, repercutir-se-á na sua obra, um grande refúgio catártico de literatura. Dante representou a sua amada como imensamente bela e semi-divina, olhando por ele. “A Divina Comédia” foi o principal trabalho de Dante, composto de três partes – o Inferno, de nove círculos; o Purgatório, de sete terraços; e o Paraíso, de sete esferas. Na sua viagem alegórica, de 100 cantos, Dante é guiado primeiro pelo escritor épico Virgílio e, depois, pela própria Beatrice. O seu amor impossível é melhor descrito em “La Vita Nuova“, obra no estilo prosimetrum, que concilia formas de prosa e verso, como sonetos, canções, baladas…

Francesco Petrarca

Francesco Petrarca

Natural de Arezzo, nasceu em 1304 e morreu em 1374, tendo vivido no começo do Renascimento. É muitas vezes chamado de “pai do Humanismo“, e foi admirado pelos seus sonetos, que romperam com as formas de poesia medievais.

Tornou-se conhecido com a publicação do épico “Africa“, em Latim, sobre o general romano Scipio Africanus, que derrotou o cartaginês Haníbal na Segunda Guerra Púnica. Grande parte do seu trabalho é, aliás, escrito em Latim. Viajou muito pela Europa, na condição de embaixador ou de viajante, valendo-lhe isso o apelido de “Primeiro Turista“.

Conheceu Laura de Nauves, e logo passou a nutrir grande paixão por ela. Contudo, o seu era um romance impossível, visto ela ser casada, e, ultimamente, ter falecido cedo. Depois da morte de Laura, Petrarca incluiu-a nos seus trabalhos múltiplas vezes, directa ou indirectamente, e a profundidade psicológica que lhe atribui enquanto personagem lírica passa muito além do cliché da mulher idealizada pelos trovadores. Todavia, escasseiam as descrições físicas exactas ou complexas, antes a sua sensualidade e paixão são sugeridas pelo ritmo e musicalidade da prosa e dos versos.

O mundo de Petrarca é distinto do de Dante, pois mesmo em volta da metafísica, a Divina Comédia gira sobre matérias culturais da altura, num registo linguísticoviolento“, quer se referindo a assuntos “sujos” ou triviais, quer a assuntos sublimes e filosóficos. Desprende-se das convenções, pois Dante foi quem primeiro usou o Italiano na escrita, linguagem que começa a desprender-se do Latim. Aliás, Dante chama a esse trabalho “Comédia” por até ao Iluminismo todos os ensaios teológicos serem escritos invariavelmente em Latim. Petrarca, por sua vez, ligou-se mais aos clássicos latinos, preferindo, portanto, o Latim e os moldes literários greco-romanos.

Dante evolui progressivamente, mas Petrarca se manteve sempre muito constante nas suas ideias e estilo de escrita.

Apesar de antes o amor puro e romântico ser retratado pelas cantigas trovadorescas, e por Dante, foi Petrarca quem levou este romance a sua série extensa de poemas de grande profundidade no que toca à luta do feminismo contra as restrições sociais e ao paradoxo dum amor não-consumado.

Ambos retratam a figura feminina como bela, virtuosa e inalcançável, intocável. Surge em relações amorosas e puras, em que nunca é consumado fisicamente o amor dos apaixonados, e o sentimento desprende-se da condição física, numa reinvenção do amor platónico.

Luís Vaz de Camões

Luís de Camões

Viveu entre 1524 e 1580, no Renascimento tardio, herdando as tradições renascentistas, sob forte influência do soneto de Petrarca, e maneiristas, quase entrando em transição para os próximos estilos barrocos.

No seu retrato do Amor Puro, é possível encontrar a adopção do amor platónico de Petrarca aliada ao desejo sexual concreto, cuja ausência apura a emoção. Assim, sendo o Amor a conciliação entre o corpo e o espírito, a sua definição é uma grande fonte de contradições.

O Amor surge justapondo a vida e a morte, esperança e desengano, opostos, que, apesar de pesar, são essenciais à vida. Em Camões, a mulher oscila entre os moldes petrarquistas

de beleza física e espiritual etérea  de Laura e o modelo mais erótico da Vénus renascentista.

Camões apoia-se no platonismo – na transcendência da mera condição física da atracção humana para um estado espiritual divino, e, com influência cristã, a sua mulher torna-se, portanto, angelical. Porém, a sua própria experiência de vida atribui à sua ideia de Amor um necessário desejo carnal, que não invalida o puro amor platónico – Camões resolve a “contradição” ditando a beleza terrena como sombra, reflexo da beleza plena. Isto é melhor explicitado no soneto “Amor é fogo que arde sem se ver“:

Amor é fogo que arde sem se ver

É ferida que dói e não se sente

"Nascimento de Vénus", de Botticelli

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder:

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si mesmo é o Amor?

Em suma, poder-se-á pensar a evolução do retrato amoroso feminino da seguinte guisa: Dante reinventou a figura feminina como divina, a que Petrarca acrescentou personalidade, a que Camões acrescentou sensualidade.

One response

  1. obiwan

    A arte como forma de aprendermos a amar

    27 de Janeiro de 2010 às 15:16

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