Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

“Caim”, de José Saramago

"Caim", de Saramago

No estilo característico do escritor galardoado com um Nobel da Literatura, “Caim” é uma expedição metafísica através de um olhar algo irónico, desenraizado das amarras do fanatismo religioso. Planando pelas primeiras escrituras da tradição cristã com fantasia e liberdade, Saramago propõe uma visão diferente das mesmas personagens e eventos bíblicos de sempre, refrescando-as com motivações humanas em vez de divinas.

O autor começa logo a nossa jornada após o momento da criação de Adão e Eva. Retrata os primeiros instantes da vivência humana, mas não exclui a existência de outros começos da Humanidade, outros paraísos terrenos em que Deus operou as experimentações divinas.
Deus é um artista frustrado, retocando invariavelmente a sua criação numa demanda utópica de o tornar sua imagem e semelhança.
Adão e Eva desfloram da sua inocência, um dia, descobrindo tudo o que não é tão angelical na existência, sofrendo a desilusão de uma criança crescida. Provada a fruta proibida que Deus podia ter posto noutro lado não querendo que a papassem, Adão e Eva são botados no deserto para se desenvencilharem por sua conta.
O fabuloso legendário instinto de mulher actua desde cedo em Eva, e esta faz o que é preciso para conseguir dos homens, ou arcanjos, o que necessita.
Descobrem como se juntar a uma caravana do deserto, como aprender ofícios, como conviver com as demais humanidades.
Passados os meses de gestação desde que Eva falou com o Arcanjo, nasce o primeiro rebento, o angélico Abel, a que seguiu o irmão, Caim.
Abel foi dedicado pastor e Caim agricultor. Contudo, “Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.”, parafraseando Hebreus, 11, 4.
Caim assassina Abel e tomou o seu nome, fugido e marcado por Deus na testa com um sinal que o tornaria um caminhante eterno, protegido das intermitências da morte, mas não da vida.

Somos, portanto, jogados numa fantasia bíblica um pouco à imagem do próprio Caim do livro, mandados para uma viagem pessoal de exploração, de adolescente reviver de emoções primitivas imperantes.

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