Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

História da Cultura e das Artes

Neo-Impressionismo

Começado em França, no final do século XIX. Seus artistas incluem Seurat e Signac.

Consideravam que a pintura impressionista não respeita a aplicação rigorosa da Teoria da Cor, que na sua espontaniedade negligenciava a correcta exploração da Teoria.

Usam de uma técnica lenta e laboriosa da partição de tons – enquanto os impressionistas representavam as suas “impressões” imediatas, os neo-impressionistas sistematizavam-nas metodicamente.

Nascem as técnicas do Divisionismo e Pontilhismo, que usavam pontos de cores complementares, que não se misturavam efectivamente, para aludir à forma – concedeu-se primazia total à expressão da cor, numa construção rigorosa marcada por desenho severo mas expressivo.


Naturalismo e Realismo

Este é o século da Laicização do Pensamento, racional e pragmático.

Positivismo – primado da experiência empírica na construção do conhecimento

Cientismo – visão sobre a ciência como resposta messiânica aos desafios do Homem

A atitude que se impõe é o Racionalismo Positivista, teorizado por Comte e Kant, e por que só são tomadas por verdades científicas as que advêm da razão aliada à experiência – uma apologia do racionalismo e empirismo. Isto a par do Socialismo de Proudhon, que defendia um compromisso humanista de luta pela igualdade social, resposta aos emergentes problemas do proletariado.

No tumulto das revoluções científicas e filosóficas, a par das mudanças sociais e económicas, também a arte se projecta para um maior compromisso com a realidade objectiva. A desumanização e laicização da sociedade, consequências da industrialização e capitalismo que se instauraram

NATURALISMO

Corrente da 2ª metade do século XIX, por que a Arte devia representar objectivamente o visível quotidiano e natural. As temáticas e tratamento sentimental românticos são descartados.

Estes artistas levam o seu trabalho para o exterior dos estúdios e a proximidade ao referente natural impele os artistas a atentarem a pormenores de luz, tom, texturas. Privilegiava-se a representação paisagista.

A Escola de Barbizon é a iniciadora do movimento; compromete-se a pintar a Natureza como esta se apresenta. Nesta aldeia francesa, os artistas se viraram directamente para a Natureza, fugindo à agitação urbana e rigor académico para aqui explorarem uma expressão naturalista e se libertarem do fantástico, religioso ou histórico.

Rousseau, Daubigny e Corot, Boudin e Whistler são dos mais emblemáticos artistas desta corrente.

REALISMO

Corrente estética (pictórica e literária) que se afirmava como anti-académica, surgida em França, entre 1848 e 70, encontrando inspiração no mundo coevo, na realidade e contexto social concretos – sua preocupação máxima era a tradução objectiva da realidade. Trata-se de uma resposta ao exacerbado sentimentalismo fantasista romântico – “o Romantismo é a apoteose do sentimento; o Realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do Homem”, escreveu Eça de Queiroz. O Romantismo fora idealista e medievalesco, enquanto o Realismo era fatalista quanto ao presente.

Privilegiava-se a representação crítica de motivos sociais, servindo-se de imagens rurais, de cenas alusivas ao quotidiano urbano ou campestre da classe trabalhadora, e de retratos e auto-retratos.

Esta pintura liga-se profundamente a conflitos sociais, como a reinvidicação do proletariado de melhores condições de vida, a afirmação socialista e crises económicas; representando-se labores de personagens comuns, anónimos.

Recuperam-se técnicas clássicas rigorosas de perspectiva, volumetria, gradação de tons, tratamento luminoso e de texturação, e representação anatómica metódica.

Courbet é o iniciador e grande teorizador do Realismo Pictórico. De convicções socialistas, este foi apologista de se pintar o sensível e tangível, defendendo a primazia da observação directa natural em detrimento do sonho e fantasia, afirmando “não posso pintar um anjo porque nunca vi nenhum”. Outros realistas foram Leibl e Fattori, Daumier e Millet. Deste último é a autoria da obra “As Respigadoras do Trigo“, talvez a obra mais emblemática do movimento. Esta compõe-se de uma cena do quotidiano rural, com protagonistas anónimas de rostos virados, que funcionam como símbolos do colectivo. É uma visão objectiva e rigorosa da realidade (camponesas trabalhando no seio da Natureza austera, humildes e resignadas) – uma obra ideológica, de convicções socialistas, alertando para a classe trabalhadora com autenticidade em detrimento de sentimentalismo. Trata-se de uma composição equilibrada, com as principais figuras em primeiro plano e dotadas de bom tratamento volumétrico (reunindo, assim, as características técnico-formais e conceptuais que caracterizam o movimento).


Impressionismo

Esta tendência artística europeia (acima de tudo, parisiense) do final do século XIX propõe-se a criar pintura mais intuitiva e espôntanea, visando captar a realidade sensorial, explorando fenómenos luminosos e atmosferas cambiantes naturais – isto devido à atitude positivista que progressivamente se afirmava, por que se prefere os sentidos aos sentimentos, e devido à afirmação da Fotografia como meio técnico de representação rigorosa, que desafia a pintura a procurar novas expressões que escapam ao registo somente naturalista.

Encontra as suas principais influências em Turner, em Courbet, na Escola de Barbizon e na estamparia japonesa (esta caracterizada por uma concepção livre da forma e da perspectiva, linear, de cores claras e puras, e de temáticas populares).

Este movimento reprovava veementemente a arte académica e o trabalho em estúdio. A pintura impressionista exclui preparações prévias e aperfeiçoamentos finais. A tinta preparada previamente e disponível em tubos de zinco portáteis garantiu aos artistas mobilidade, permitindo que trabalhassem em locais naturais.

Descobertas científicas no domínio do comportamento da luz e da cor (como as levadas a cabo por Newton ou Young ou Chevreul) permitem que se enuncie a Teoria da Cor, de que partem noções rigorosas de como se operam contrastes cromáticos – conhecimento basilar para os artistas impressionistas. Os trabalhos impressionistas dão grande ênfase à luz, e são as cores que constroem as formas, em pinceladas rápidas e curtas, justapostas em função da síntese aditiva de cores complementares, que criavam assim a gradação tonal. Disto resultava o aspecto inacabado e rugoso dos quadros, com cores muito fortes e volumetria pouco definida, para captar a essência em detrimento do detalhe

Os temas, que não passam de pretextos para exploração de potencialidades luminosas, giram em torno da vida quotidiana burguesa, desde as festas aos demais convívios, no campo ou na cidade.

Manet é o grande precursor deste movimento, que se afirma com o trabalho de Monet, Renoir, Pissarro e Degas. É de “Impression Soleil Levant”, por Monet, que o movimento recebe o seu nome, e, no fundo, é precisamente esse o seu objectivo: impressionar; representar as impressões imediatas do artista ante uma variação de luz, um qualquer evento, sempre num estudo fugaz.


Arquitectura Romântica

O Academismo Clássico é rejeitado, em prol de novas convicções de irregulariade volumétrica, efeitos luminosos, planos imbuídos de movimento e decoração pitoresca. A Arquitectura Romântica, em vez de domar a Natureza, vai-se mesclar nela, fundindo-se harmoniosamente, imitando-a, buscando nela inspiração e medida – agora, torna-se notória a preocupação com a inserção do edifício no meio envolvente.

A sua estruturação é irregular e variada, e a tendência decorativa é para a grande atenção aos pormenores, usando-se ferro e tijolo vidrado, os novos materiais industriais.

Revivalismo eclético e exótico – é como pode ser chamado o modo como a arquitectura romântica floresceu; reunindo inspiração nos estilos arquitectónicos passados de cada nação europeia, e fundindo-os entre si e com os de civilizações exóticas, da Ásia ou África. Reinventam-se os estilos bizantino, mourisco, indiano, românico, gótico, renascentista, barroco, com a adição das novas influências modernas e da mística que cada autor imprimia aos seus projectos.

Em Portugal, a arquitectura oitocentista inspira-se no românico, gótico, manuelino, mourisco e oriental. Desde o Palácio da Pena, à Estação Ferroviária do Rossio, à Praça de Touros do Campo Pequeno, ao Palácio do Buçaco, ou ainda (tardo-romântica) a Basílica de Santa Luzia


Gustave Eiffel e a 1ª Exposição Universal

O engenheiro Gustave Eiffel (1832-1923) representa o exponente máximo da ruptura tecnológica e científica na Europa do século XIX. Suas obras incluem os projectos da Torre Eiffel, da Estátua da Liberdade e das comportas do Canal do Panamá, de carácter pioneiro e emblemático.

Herdeiro do espírito inventivo da Revolução Industrial, quando a Arquitectura é do primado dos engenheiros, responde às novas questões postas pela novidade com soluções pragmáticas e estetas – a simbiose entre a funcionalidade e a nova estética. O engenheiro substitui o arquitecto por ter uma formação tecnicamente mais adequada aos novos meios de construção, além da sua sensibilidade pragmática.

A generalização do uso do ferro e do vidro possibilita o surgir de novas respostas para plataformas de transportes ou para estruturas de edifícios. E, detendo Inglaterra uma poderosa indústria siderúrgica, vai mais rapidamente adoptar estes novos paradigmas de construção.

As exposições universais, começadas na segunda metade do século XIX, surgiram como fruto da necessidade de divulgar e partilhar novas informações, produtos e tecnologias da Revolução Industrial. A primeira, realizada em Londres, a 1851, teve lugar no “Palácio de Cristal”, grande êxito funcional e estético, executado rapida e economicamente, vindo a marcar a grande ruptura com os conceitos arquitectónicos clássicos como grande paradigma do edifício moderno, inspirando imitações por todo o mundo. As exposições universais personificavam a apologia da maquinaria e tecnologia sobre a tradição.

Os engenheiros afirmaram, com o Palácio de Cristal, a sua nova apologia à modernização das edificações, aos materiais industriais (ferro e vidro), à estruturação orgânica sobre as paredes, aos espaços translúcidos.


Escultura Romântica

Na medida em que as suas técnicas não permitem explorar a espontaniedade do artista como outras artes fazem, a Escultura não ganhou grande destaque entre os Românticos.

As composições são movimentadas e dramáticas, exaltando a expressividade emocional das representações, que deixam de ser estáticas e polidas como no Neoclassicismo. Os temas passam pela inspiração natural/animal, pela Alegoria, pela fantasia literária ou histórica e pelo retrato. Muitas vezes a Escultura Romântica jogou com contrastes de preenchimento e vazio, combinações de texturas e pormenores aparentemente inacabados.

PREAULT – conhecido pelas suas posições pacifista e socialista (“Massacre”)

RUDE – notáveis altos-relevos e estatuária de vulto redondo (“A Marselhesa”, alto-relevo)

BARYE – preferiu temas animalistas (“Jaguar devorando Lebre”)

CARPEUX – marcado pelo erotismo, naturalismo, dinamismo e tensão, através da sinuosidade do escorço (torção) nos seus corpos, e o carácter exacernado do sentimento do assunto (“Ugolino” ou “A Dança” na Casa de Ópera Parisiense)

Entre os escultores portugueses, constam Victor Bastos ( exaltou heróis como Camões com forte expressão emocional) e Camels (estátua equestre de Pedro IV); Ambos colaboraram na decoração escultórica do Arco da Rua Augusta.


Pintura Romântica

É na pintura que o movimento romântico vai encontrar a sua mais forte expressão. Encontrou expressão por toda a Europa e pelos Estados Unidos. Géricault e Delacroix, na França; Friederich, na Alemanha; Turner e Constable, na Inglaterra; Goya, na Espanha.

Em Portugal, cingiu-se a uma expressão dispersa, pouco consistente, essencialmente impulsionada por estrangeiros radicados ou de passagem. Praticou-se especialmente a Paisagem naturalista, a História Medieval, a Vida rural e mística e o Retrato. Alguns dos grandes nomes nacionais desta corrente são Roquemont (focado na vivência campestre), Luís Pereira Menezes (grande retratista), Tomás da Anunciação (preferiu cenas bucólicas, e foi acima de tudo Naturalista), Francisco Metrass (exalta episódios históricos de grande relevância simbólica em Portugal).

Os “Nazarenos“, grupo alemão neoclássico inspirado pela Roma renascentista, será uma das principais influências da pintura desta corrente (estes almejavam uma arte depurada, que regressasse à valorização espiritual, ao virtuosismo artístico do Renascimento). Entre os principais seguidores dos Nazarenos, estão os “Pré-Rafaelistas“, que reagiram contra a Academia, centrada no Renascimento, para se focarem no Gótico e no Renascimento anterior ao pintor Rafaello Sanzio. Estes pintores ingleses tardo-românticos criaram a transição da Pintura para o Realismo e para o Simbolismo.

O Pintor Romântico faz valer a sua expressão pessoal, libertando-se dos ditames da encomenda externa para seguir os impulsos artísticos dos seus estados de espírito. Deste modo de pensar a Arte, nasce uma Pintura individualista e diversa, que inova tanto na forma como na plástica (representando mesmo o advento da grande renovação pictórica que acontece no início do século XX)

As Temáticas da Pintura Romântica passam por representações:

  • Históricas – de que se preferem os episódios medievais, numa leitura enaltecedora do herói idealista e abnegado que se entrega à sua causa;
  • Literárias – buscando inspiração nos romances de cavalaria medievalescos, nos clássicos (como Virgílio) e nos renascentistas (como Dante ou Shakespeare);
  • Mitológicas – nórdica e cristã, com grande acentuação no misticismo e espiritualidade da mensagem;
  • Retratistas – de ofício ou honra, mas também de populares anónimos, e, por regra, em representações subjectivas, emocionais, psicológicas;

Contudo, a Pintura Romântica vai incidir sobre novos referentes, como:

  • Temáticas da Actualidade coeva socio-política, como desastres, reinvidicações sociais, lutas nacionalistas e libertação de minorias etnicas (sendo a pintura romântica muitas vezes marcada por um sentido intervencionalista);
  • Temáticas Oníricas, em que se explora a imaginação do autor, as suas fantasias, sonhos, o subconciente e absurdo dos seus pensamentos;
  • Costumes populares, tradições e hábitos folclóricos
  • Civilizações exóticas, não-europeias, como o Norte de África, a China ou a Índia;
  • Vida Animal
  • Paisagens, numa representação emocional, em que o autor usava a Natureza para espelhar seus sentimentos/estados de espírito.

GÉRICAULT – obcessecado com o dramatismo heróico e a condição humana, reflectidos com exacerbada emoção.

DELACROIX – orientalista, sensual, cruel, dirigido à mensagem política, expressando-se através da exaltação dos sentidos.

FRIEDERICH – prefere paisagens inóspitas e agrestes, em que o Homem representa uma oposição, uma perturbação do estado indómito natural, sugerindo meditação, devaneios interiores, comoção; é parco em detalhes e mantém o público em certa suspensão/indefinição.

CONSTABLE – é dos que mais veracidade imbui às suas representações da Natureza (nas formas, cores e ambiências), ainda que não deixe de transformá-la, numa composição idílica de grande sensibilidade e poesia (“a pintura não é senão outra palavra para sentimento”).

TURNER – entrega-se frequentemente a cenas marinhas, por diferentes ambientes climáticos,  muitas vezes desenhando uma baixa linha de horizonte e atribuindo grande peso visual ao céu, cujos jogos de luz e cor quase se tornam precursores do Impressionismo. Apesar de a presença humana não ser estranha às suas obras, é normalmente cingida a um segundo plano, em prol da própria Natureza envolvente.

GOYA – muita da sua obra é marcada de um tom sinistro, trágico; seus retratos são ecléticos, extendendo-se pelas várias castas da sociedade.

A Execução da Pintura Romântica

A espontaniedade e a o individualismo marcam esta forma de Arte. Recebe ainda muitas influencias do academismo neoclássico, usando tratamentos de claro-escuro realistas e naturalistas, comportando excepções que simplificaram o desenho das formas e as sombras, estilhaçando as noções de tridimensionalidade. Os valores emocionais da cor ganharam grande destaque nas preocupações do autor, que criaram fortes constrates e intensas transições de claro e escuro, obtendo dramatismo luminoso para exacerbar a sentimentalidade e expressividade. Frequentemente, os artistas traduziam as suas ideias tão-somente através de aguadas, esboços ou formas pictóricas incompletas, que lhes valeram a rejeição por parte das autoridades académicas.

O trabalho a cor foi preferido sobre o desenho linear, e preferiu-se o óleo e a aguarela, com pincelada fluída e espontânea (entre outras novas formas de trabalhar os meios actuantes, como a aplicação das tintas com esponjas ou com os dedos), o que reduzia a nitidez dos volumes.

As estruturas na composição são movimentadas, desequilibradas, sinuosas, oblíquas, desviando os focos de atenção. A figura humana é representada em escorço, não obedecendo aos cânones clássicos, movendo-se de forma dramática.


Cultura do Barroco

O nome “Barroco”, que quer dizer “imperfeito”, foi atribuído pelos neo-classicistas do século XIX.

O Barroco é um período cultural dos anos 1618 a 1714, caracterizado pelo chamado Antigo Regime, a Monarquia Absoluta/Absolutismo, que muitos reis europeus reclamam, propondo serem apontados como ministros divinos, governando em nome de Deus com total poder, tirado à classe nobre e centralizado na figura chave do rei. Simultaneamente, outras nações europeias tomam regimes Parlamentares, como Inglaterra ou Países Baixos, depois de independentes de Espanha.

Esta é uma época de instabilidade social, generalizada pela pobreza, confrontação religiosa e militar – o maior conflito deste tempo, a Guerra dos 30 anos, é despontado pelo conflito de católicos e protestantes de Hansburgo e Boémia.

A sociedade mantém-se uma de ordens tripartida – Clero, Nobreza como as classes privilegiadas e o 3º Estado, o Povo, as massas trabalhadores que sustentavam a elite, a burguesia artesã, mercantil ou proprietária; a desigualdade e estagnação sociais eram crónicas.

A Economia acusava crises pontuais. Na Europa, os Países Baixos foram os mais abastados. É deste tempo a teoria económica do Mercantilismo, por que o poder do Estado reside nas suas reservas de metal precioso, que são aumentadas com as exportações; o objectivo máximo é a auto-suficiência, a autonomia financeira. Esta teoria foi desenvolvida por Colbert, o ministro do Rei Sol Luís XIV.

A corte do Rei Sol, Luís XIV de França, foi o modelo cultural deste tempo. A corte-estado era um palco de faustosas cerimónias que representavam uma fachada de imponência. E Luís XIV fez este seu palco poucos quilómetros fora da capital Paris, no Château de Versailles. Uma corte de centenas de servos, soldados, cortesãos e artistas habitavam o novo centro de poder, regido por um complexo cerimonial com códigos de etiqueta para as dependências aristocráticas, orientadas para o culto da figura divina do rei. Os rituais rodavam em torno das hierarquizações de estirpe social num ambiente luxuoso de requinte e aparato faustoso; e todo o complexo era sustentado por pensões reais, doações ou demais favores.

A corte opera numa dinâmica teatral, cujo protagonista é o rei. Luís XIV, para o seu espectáculo, torna-se mecenas para artistas e intelectuais, como Molière ou Jean-Baptiste Lully. É na sua corte  que se vai desenvolver a arte da ópera, que combina canto, música e bailado – Claudio Monteverdi cria em 1607 “Orfeu”. Em Paris, Luís XIV tem o Palais Royal e as Academias de Ciência e Belas-Artes. Porém, a sua maior jóia é o Palácio de Versailles, que erigiu como demonstração suma do seu poder régio. Este será modela para os demais palácios europeus, ainda que este não seja por excelência um monumento barroco – a este movimento, pertence a fachada, os jardins e espelhos de água, terraços e decoração interior. O edifício tem inúmeras reminiscências classicistas.


Arquitectura e Escultura Maneiristas

Villa Rotonda e Basilica di San Giorgio Maggiore, por Palladio

A Arquitectura rompe com os cânones clássicos, passando a usar de irregularidades, elementos estruturais redundantes, decorações caprichosas e teatrais e um espaço estreito, projectado longitudinalmente, valorizando-se a profundidade. Busca-se o desequilíbrio, perdendo-se a preferência pela simetria, partindo-se os edifícios por consolas. Os exteriores são adornados com revestimentos pétreos decorativos rectangulares (silharia, que é feita rude).

As tipologias mais frequentes permanecem as promovidas no Renascimento, desde os vários esforços urbanísticos à Villa, ao Palazzo, à Igreja. A Igreja é feita algo austera, numa única nave interior sob uma abóbada de berço, preferida por razões de acústica. Capelas inseriam-se entre contrafortes, o transepto era pouco saliente, uma cúpula sobre o cruzeiro e uma capela-mor reduzida à abside.

Palazzo Pitti, por Brunelleschi e reinterpretado por Vasari

Há um novo sentido da volumetria e distribuição formal do edifício, que segue as instruções do Concílio de Trento, nas orientações da Contra-Reforma Católica.

São Michelangelo e Vasari os primeiros a evidenciar este espírito estético e intelectual.

Andrea Palladio, mais tarde, tentaria impor de novo o classicismo arquitectónico. Vignola, por fim, foi um outro nome que se impôs na arquitectura maneirista.

"Sansão derrota o Filisteu" e Crucifixo do Escorial, por Ammannati

A Escultura Maneirista, por sua vez, caracteriza-se pela perda de rigor clássico, substituindo o realismo racional pelo virtuosismo técnico e formal. É subjectiva, sentimentalista, sensível, privilegiando a sensualidade plástica, e contínua a variar em dimensões e modalidades. Grandes nomes deste estilo artístico foram Bartolomeo Ammanati, Giambologna ou Benvenuto Cellini. Fora de Itália, destaque para o espanhol Alonso Beruguete.

A estatuária de grande dimensão é a mais comum, servindo como monumentos, representativos e decorativos, especialmente profana, pelo período de austeridade iconoclasta da Reforma Protestante, que se levantou contra os ídolos cristãos. Coleccionadores fizeram florescer um mercado de estatuária mais pequena.

“Fontana del Nettuno”, por Cellini; aqui o escultor tira partido do contraste cromático do mármore e do bronze

A figura individual muitas vezes roda sobre si mesma, em ascensão. Grupos escultóricos tendem a exibir escorços difíceis, expressões faciais e corporais intensas, em grandes jogos de volumes e contrastes de luz e sombra; estes grupos são normalmente mitológicos, alegóricos ou comemorativos.

Os escultores começam também, além de criar as estátuas em vulto redondo, a tirá-las de um conceito de unifacilidade para uma concepção de perspectiva estereométrica multivisual, para a contemplação omnilateral da obra.

"Perseu com a cabeça de Medusa", de Cellini


Maneirismo e Pintura Maneirista

"La Deposizione", de Rosso e de Pontormo

Chegado o auge da expressão renascentista, os artistas iniciam uma segregação do que se tomava por excelência artística. Michelangelo abandona, nas últimas fases do seu trabalho, o realismo típico para uma visão idealizada da temática a representar – altera proporções e adopta expressões diferentes das habituais. No final da sua vida, Michelangelo adopta uma liberdade e rudeza atípicas do anterior realismo racionalizado, chegando mesmo a deixar marcas das suas ferramentas nos produtos finais, a que imbui maior emoção. Criam-se tendências antagónicas, que advêm da afirmação individual de artistas, que marcará a transição para o estilo Barroco. O Maneirismo deve a sua designação ao facto da arte se tornar “amaneirada”, feita como dita a maneira pessoal do artista, que se propõe criar composições mais complexas, fluídas e sinuosas, e lança o desafio técnico do trompe d’oeil na pintura mural e o escorço exagerado, os contrastes cromáticos fortes, as expressões fisionómicas densas e cenografia sofisticada – tudo para acentuar as emoções. O Maneirismo entende-se entre 1525 e 1600, e toma-se simultaneamente por uma fase decadente da arte, por analogia renascentista, mas também por uma fase precursora do modernismo.

"La Madonna dal Cullo Lungo", de Parmigianino; "Allegoria del trionfo di Venere", de Bronzino

Michelangelo e Raffaello são os percursores desta forma de arte, que os jovens que os seguem adoptam, como Il Rosso ou Pontormo. Rosso Fiorentino usa em “La Deposizione” uma grande amálgama de figuras contrastantes do fundo escuro numa actividade confusa e agitada. Jacopo da Pontormo, tratando a mesma temática, evidencia ainda mais os contrastes cromáticos e a azáfama narrativa.

A estes segue-se Parmigianino, que se afastou do conceito da beleza do observável, para explorar uma beleza fantástica. Agnolo Bronzino desenvolve um tacto sofisticado e subtil para o nu marmóreo, sensual mas frio. Tintoretto é do Maneirismo veneziano, conhecido por “Il Furioso”, preenchia os seus quadros com acção acessória elegante. Corregio enche a sua obra de misticismo católico e mitologia clássica.

Em suma, a Pintura adopta composições complexas, em que as figuras são torcidas em escorços demarcados e se toma um cuidado especial à decoração mural com o trompe d’oeil, recriação de espaço aberto sobre superfície opaca. A emoção é drasticamente dramatizada, a anatomia distorcida e alongada, recorrentemente em nu, com contrastes cromáticos fortes. A figura é esguia, elegante, contorcida e muito musculada, os tons sombrios, a temática essencialmente religiosa, o idealismo exacerbado e a instabilidade propositada, com sombras irreais criadas para isso.


Escultura Renascentista

Detalhes d' "As Portas do Paraíso", de Ghiberti (nome da obra vem de Michelangelo)

A Escultura Renascentista é o culminar de um processo evolutivo que começa na Escultura Gótica e no reencontro com a cultura greco-romana, pelo que a Escultura Renascentista é profundamente marcada pelas influências do pensamento classicista e humanista desta época – esta estatuária é pensadas à medida ideal humana, recuperando o nu humano, a representação equestre e o retrato greco-romanos, usando os seus cânones e reinventando-os com especial atenção ao realismo, ao dinamismo, naturalismo expressivo e anatómico, e à racionalização, à matematização da composição das figuras, que se inspiram em modelos reais.

A estatuária, além de se manifestar como relevos (em especial, sobre frisos ou pórticos), ganha também autonomia da arquitectura, adoptando-se o vulto redondo, encontrando-se novas opções de explorar a volumetria das figuras. Apuram-se as formas de explorar a tecnicidade diversa de materiais como o bronze, o mármore, madeiras (os mais populares).

"David", de Michelangelo

Alguns dos primeiros grandes nomes da escultura foram Jacobo della Quercia, com relevos simples mas volumetria e expressividade mestres; Lucca della Robbia, que se especializou no barro, mas fez relevo em mármore no coro da Catedral de Florença; Andrea del Verocchio, um dos principais trabalhos escultóricos é “Colleoni“, uma estátua equestre, mas chegou a pintar a lado de Leonardo.

Lorenzo Ghiberti – primeiro escultor florentino a trabalhar vultos redondos; seu principal trabalho foram as portas do Baptistério de Florença, altos-relevos em bronze dourado, de temática religiosa, com composições dramáticas e detalhe naturalista e arquitectónico; modelação corporal pioneira, que recorre ao “contraposto” clássico, que com uso de perspectiva linear cria a ilusão de profundidade; e cinzelamento acentuado ou atenuado para aludir a um claro-escuro.

Donato Donatello – seu trabalho caracteriza-se pela modelação anatómica do vulto redondo e pela imaginação compósita e figuração sensível e expressiva; seus principais trabalhos foram “David”, o primeiro nu à escala real desde a Antiguidade, e “Gattamelata“, uma estátua equestre, inspirada na de Marco Aurélio, imperador romano cuja representação  é das únicas da modalidade equestre que chegaram aos renascentistas.

Estátuas Equestres de Colleoni, Marco Aurélio e Gattamelata

Antonio del Pollaiuolo, já pertence ao Alto Renascimento e mostra traços de expressividade e dinamismo maneiristas, mantendo ainda assim o rigor anatómico; seu principal trabalho escultórico foi o túmulo do Papa Inocêncio VIII.

Michelangelo – na última fase do seu trabalho, demonstra já traços maneiristas, mas é considerado um artista e um homem renascentista por excelência, como Leonardo da Vinci; trabalhou principalmente para os Medici e para o Papado; da sua escultura, são mais importantes “David”, a “Pietà” e “Moisés”, e os túmulos do Papa Júlio II e dos Medici.


Arquitectura Renascentista

Ordens gregas (dórica, jónica, coríntia)

A arquitectura renascentista é impulsionada pelos primeiros movimentos vanguardistas florentinos – é em Florença que primeiro se tomam os passos inovadores do Renascimento arquitectónico.

A Arquitectura Florentina é a primeira a retornar ao passado clássico, observando a evidente herança greco-romana e recuperando tratados como os do romano Vitrúvio. Assim, surgem novos motivos decorativos e uma busca continuada de proporção ideal, equilibrada e simétrica, em que o estudo/projecto ganha lugar na concepção estruturante do edifício, alicerçado na geometria.

A herança greco-romana é readaptada num movimento Classicista, que volta a dar destaque às ordens arquitectónicas clássicas (dórica, jónica e coríntia; toscana e compósita) e as colunas, ao frontão triangular, ao arco de volta perfeita, abóbadas e cúpulas. Simultaneamente, sobrevaloriza-se a racionalização da estrutura através de rigorosa matematização.

Os principais homens do primeiro renascimento foram:

"Santa Maria del Fiore", por Arnolfo di Cambio, Brunelleschi e Giotto di Bondone

Fillipo Brunelleschi – foi primeiro ourives, mas dedicou-se à arquitectura inspirado no seu estudo de ruínas romanas, fascinado pela volumetria, planificação, decoração desses edifícios; este promove a nova concepção de tipologia religiosa da Igreja, em que o espaço interior se unifica, suprimindo-se a divisão rigorosa em naves. As suas maiores obras incluem a cúpula de Santa Maria del Fiore ou a Igreja de San Spirito.

"Palazzo Rucellai" de Alberti

Leon Battista Alberti – este arquitecto promoveu uma nova tipologia de estruturas urbanas, focando o palazzo (os seus maiores exemplos de edifícios citadinos são o Palazzo Rucellai ( em que usa o opus reticulatum para imitar as ordens decorativas do Coliseu) e Ospedale degli Innocenti); escreveu tratados como “De satua“, de proporção anatómica, “De pictura“, a primeira definição científica da perspectiva linear, ou “De aedificatoria“, que compila a teoria da nova arquitectura pensada sobre a medida do Homem, racionalizada geometricamente.

Com estes homens, o vocabulário construtivo e ornamental clássico é renovado e expandido, numa emergência duma utopia urbanística estruturada sob uma malha regular/alinhamento geométrico, no qual surge destacada uma praça central, novo local nobre elitista. Esta nova projecção lança os edifícios na direcção horizontal, aproximando-a ao Homem, de acordo com o sentimento humanista da Renascença, em detrimento da verticalidade gótica.

"Tempietto di San Pietro" de Bramante

E, a par do urbanismo, a Igreja, no Concílio de Trento, impõe as suas próprias directrizes, como unificação do espaço sob uma única nave, ou a garantia de iluminação para uma visão absoluta do espaço. A fachada e o portal principal permanecem como os trunfos da obra. A arquitectura religiosa também assume plantas de cruz grega em detrimento da latina basilical, preferindo a simetria quadrangular perfeita. Nesta forma arquitectónica, destacou-se Donato Bramante, que erigiu Tempietto di San Pietro e planificou a Basilica di San Pietro, que contou também com a colaboração de, entre outros, Giuliano da Sangallo, Fra Giocondo, Raffaello e Michelangelo.


De Revolutionibus Orbium Coelestium

Obra escrita a 1543 por Nicolaus Copernicus, erudito aclético polaco, sabedor de advocacia, matemática, estratégia, medicina…

Foi em “De Revolutionibus Orbium Coelestium” que Copernicus enunciou, matematica e cientificamente, a teoria heliocêntrica, segundo a qual o Sol é o centro do cosmos, e sobre o qual a Terra gira, bem como outros corpos celestiais. Copernicus afirma isto quando se cria no geocentrismo, segundo o qual a Terra era o centro imóvel do universo, em volta da qual planetas e o Sol giravam.

Por anos investigou com instrumentos pouco capazes para tamanha pesquisa. Fez observação metódica empírica, e análise rigorosa às teses clássicas que suportavam e se opunham ao geocentrismo – respectivamente Pitágoras, Aristóteles, Platão, Ptolomeu, Eudóxio, Apolónio; e Aristarco de Samos, Filolau, Heráclides, Rhadir de Sevilha, Nicolaus de Cusa, Feuerbach, Muller.

Com complexas demonstrações matemáticas pormenorizadas, comprova que o Sol é uma estrela estática, e astros como planetas giram em movimento de rotação e translação. Assim, o movimento que os astros fazem no firmamento é apenas aparente, devido ao próprio movimento da Terra.

Foi uma afirmação polémica, no seu tempo, embora apenas entre a comunidade erudita, único auditório da tese. Até contra dogmas bíblicos esta tese se insurgia, ensinamentos do catecismo antigos. O seu trabalho foi reprovado por quase trezentos anos, ainda que houvesse quem continuasse a estudá-lo, mesmo provadas posteriormente imprecisões. Foi na obra de Copernicus que homens como Kepler, Galileo Galilei, Giordano Bruno ou Tycho Brahe.


Imprensa

O Humanismo foi a expressão literária dos valores intelectuais renascentistas. Escritores, filósofos e professores traduziam dos originais gregos e latinos, rejeitando as falaciosas versões adulteradas medievais. Renovaram o fascínio pelos escritos clássicos, e promoveram o novo espírito reflectivo, precedido por Dante, Petrarca e Boccaccio.

Eruditos procuraram nas bibliotecas antigas, em ruínas, em busca de originais para preservar e copiar, e também imitar e recriar critica e criativamente. A par da valorização do grego e do latim, preferia-se igualmente a língua materna, nacional, e grandes exemplos desta literatura foram Shakespeare ou Camões. Tudo isto despontou a valorização da experiência pessoal, do espírito crítico, analítico, racional, antropocêntrico, humanista, enfim, a consciência da modernidade.

Thomas More, Eramus, Maquiavel, Rabelais e Damião de Góis foram alguns dos nomes mais influentes da literatura humanista. Estetas, optimistas, amantes da vida, como os clássicos, os humanistas não deixaram de acreditar em Deus quando acreditaram no Homem, e faziam novas pontes entre a Escritura e a interpretação humanista.

E, precisamente nesta época, a difusão de ideias, a comunicação de informação, é revolucionada pelo surgimento da Imprensa, graças a Guttenberg, que reinventa a tipografia, na Alemanha, no século XV. A novidade da Imprensa rapidamente tomou a Europa inteira. Guttenberg terá importado a técnica da Imprensa, mas a melhorado a um nível completamente diferente, com a criação dos tipos metálicos reutilizáveis, com as experiências com diversas misturas de tintas, com a adopção da prensa vinícola e com o uso do suporte do papel, em detrimento do pergaminho – permite-se a maior edição de livros, que os populariza, abrangendo maior público para os seus conteúdos.

Até então, as edições eram lentas, manufacturadas principalmente por monásticos, e cingia-se principalmente a livros religiosos ou romances de cavalaria. Com a nova facilidade de edição, surgem livros de viagens, reedições de clássicos, de medicina ou direito, reflexões humanistas.

A vida cultural progride imensamente com este contributo, sendo emulsionada a divulgação de ideias, correntes culturais, estudos, até as próprias mentalidades. Ainda assim, o livro permaneceu um artigo de luxo explorado por comerciantes especializados.


Vida Urbana e o Palácio

No contexto histórico da Renascença, a vida cultural centra-se nas cidades. Bispos e escolásticos, universidades, negociantes, cambistas, todos se instalam nas urbes, mesmo os nobres senhoriais, que trocam o castelo rural por uma habitação urbana fortificada, o palazzo.

Este é um símbolo das elites que o habitam, e um ponto de encontro para aristocratas, artistas, filósofos… A sua planta é, normalmente, quadrangular, de três ou quatro pisos. É de pedra, aparelhada com reforços maciços no rés-do-chão, por vezes ganhando um aspecto compacto. As fachadas exteriores eram austeras, mas as interiores, viradas para o pátio interior, eram mais delicadas, com loggias, arcadas expostas com estatuária, mármore e cerâmica esmaltada tipicamente romana. Todas as divisões se organizavam viradas para o pátio, e de modo funcional: serviços no rés-do-chão, depois dependências sociais e por fim aposentos privados.

O novo estilo de vida requintado e luxuoso girava em torno de festas, bailes, saraus, banquetes, tertúlias intelectuais, teatro, música, poesia. Bibliotecas, museus privados e tipografias foram criados para satisfazer o acrescido interesse pelo coleccionismo e leitura. Encomendas e patronato promoviam as obras dos artistas, convidados, por vezes, a equipar oficinas pelos mecenas.


Conceitos do Renascimento

Nesta época, dois movimentos culturais dão-se simultaneamente: o Descobrimento e o Renascimento.

A Exploração Marítima de Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e Rússia resgatam o interesse científico, incentivando o desenvolvimento da Geografia, Matemática, Astronomia. É consequência disto o intercâmbio cultural, a redescoberta das dimensões terrestres, oceânicas e continentais, o estabelecimento de comércio mundial, e, ultimamente, novas concepções antropológicas.

E na Itália, a concentração de centros de intercâmbio comercial abundante italianos financia o mecenato artístico praticado pelos eclesiásticos, nobres e burgueses; a segregação em vários estados autónomos fomenta competição a todos os níveis, mesmo culturais; a própria ligação patente à herança greco-romana; estas são as principais condições para que o Renascimento se desse como se deu, com especial incidência nas cidades de Florença, Roma e Veneza.

Mecenato é a prática proteccionista promovida por ricos e poderosos sobre promissores criadores artísticos, científicos, literários.

Neste tempo, uma nova valorização do homem vem-se opor ao teocentrismo medieval, centrando Deus na cosmologia humana. Agora, opõe-se-lhe o Antropocentrismo, atitude filosófica centrada no Homem como figura exponente do cosmos; paralelamente, fala-se em Humanismo, movimento do Renascimento filosófico, literário e artístico focado nas potencialidades do Homem, impulsionado pelas redescobertas do pensamento clássico.

A centralização na figura humana acaba por sugerir a própria realização individual e colectiva humana, numa atitude que era o Individualismo. O Homem Renascentista é completo e perfeito, fisica e mentalmente, cultivando o corpo, o intelecto e o civismo. O artista ascende de simples artesão a uma entidade intelectual, um génio técnico e criativo, que vale o reconhecimento do público.

O Classicismo é óbvio, na imitação das influências clássicas. E outras posturas surgem paralelamente, como o Naturalismo, a observação metódica e a imitação estética da Natureza; o Racionalismo, a reinterpretação do conhecimento sob a lógica observacional da Razão; o Criticismo, a reflexão fundamental sobre conceitos e teorias; o Experiencialismo, evidente no espírito científico dos expedicionários mareantes e dos artistas estudiosos, foi o empirismo curioso sobre as leis da Natureza, da Física, da Anatomia, construindo-se conhecimento em detrimento da teoria anterior.


A Cultura Renascentista

Entende-se por Renascimento o período que se segue à Idade Medieval, marcado pelo reanimar das letras e artes num reencontro com a Antiguidade Clássica. Foi o movimento revolucionário que despontou da Itália para a Europa do Quatrocentos (Quattrocento) à Guerra dos 30 Anos, de 1618.

Este momento marcou-se pela evolução que evidenciou a substituição do pensamento teocêntrico e simbólico medieval por uma mentalidade humanista, racional e crítica que desabrochou no recuperar do espírito clássico na Itália e nos descobrimentos expansionistas na Ibéria.

Entre as múltiplas condicionantes de que resultou o Renascimento, está o novo afluxo ao mundo urbano, o consequente dinamismo socioeconómico, as ligações internacionais e a promoção duma nova ordem social europeia, em que a Igreja partilhava do poder laico da nobreza, e agora da burguesia.

A Europa simultaneamente deu-se a conhecer às novidades geográficas e à cultura clássica. Intercâmbio cultural e comércio mundial aliaram-se num período para a hegemonia europeia sobre o mundo. A par da prosperidade dos novos Impérios, a ciência, a arte e a filosofia floresciam.

Na península itálica, nações independentes, repúblicas oligárquicas (elitistas) e ducados, viviam uma economia privilegiada, suportada em desenvolvimento agro-artesanal e comércio internacional, que fez brotar a nova classe social burguesa. Esta impôs-se como elite, criando um estilo de vida próprio, dirigido ao trabalho, ao luxo e ao intelecto – um paradigma do novo Homem Renascentista. Gerou-se assim a prática de mecenatismo, apoio proteccionista de criadores artísticos, literários, científicos.

Por razões evidentes, a Itália foi onde mais se valorizou a redescoberta clássica, resgatando-se peças e obras desse tempo, imitando-se o espírito cultural de então. Os artistas seguiram de perto os cânones e indicações de greco-romanos, não tardando a ousarem criar novos rigores conceptuais, expressões, temáticas. Os artistas renascentistas impuseram-se como intelectuais, em vez de simples artesãos, pelo seu talento técnico, compreensão e inovação artística. O reconhecimento do autor, do génio criativo individual, carrega novo estatuto social, equiparado ao de elites. Frequentam cortes, provando com governantes, seus patronos.

Todavia, nos Quinhentos (Cinquecento), todo este espírito de renovação ameaça o poder espiritual da Igreja Católica. E, estes assaltos ao seu domínio culminam nas críticas de Erasmus, Martin Luther, Jean Cauvin, entre outros, num movimento de Reforma Protestante. A Igreja Católica, face à perda de influência política e espiritual, reforma própria os seus organismos e toma acções repressivas sobre os dissidentes.


Pintura Renascentista

"Retrato dum Músico", de Leonardo da Vinci

A Pintura da Época do Renascimento é entendida em três períodos: o Trecento, de quando a pintura renascentista ainda se restringe às imediações de Florença, o pólo político e cultural de então; o Quattrocento, quando já o movimento renascentista predomina em toda a península itálica; o Cinquecento, quando o movimento se torna europeu, mas já decadente, lançando o Maneirismo e o Barroco, instaurado este último pela Contra-Reforma, como grande afirmação da Igreja Católica. Do Trecento, destaca-se Giotto; do Quattrocento, Botticelli e Leonardo; do Cinquecento, Rafaelo e Michelangelo.

A Pintura produzida pelos artistas desta época caracteriza-se por inovações que marcadamente a distam da Pintura Medieval:

Volumetria e Geometrização, a representação rigorosa com tridimensionalidade inserida em construções matemáticas harmoniosas;

Naturalismo, representação realista e expressiva, com pormenor paisagístico, vegetalista, anatómico;

"Cidade Ideal", de Piero della Francesca

Perspectiva Rigorosa Científica, método de criar a ilusão de profundidade sobre uma superfície plana, com princípios  geométricos e matemáticos, estudada profundamente por Brunelleschi, Alberti (arquitectos) e Piero della Francesca (pintor) – a perspectiva linear era evidenciada na criação de espaços geométricos cujas linhas convergem num ponto de fuga e a dimensão das figuras varia consoante o seu plano, e a perspectiva aérea, a gradação de luminosidade, o esfuminho;

Temática, que deixa de ser exclusivamente religiosa, mas também profana (denominação por oposição), nomeadamente, mitológica e alegórica, de cortejo, do quotidiano ou de retrato.


Lorenzo de Medici, il Magnifico

Nascido a 1449, no seio da família Medici, Lorenzo foi um importante político e mecenas do seu tempo.

A sua família era uma das mais influentes na cidade de Florença, devido à sua riqueza, que advinha dos seus negócios de comércio e câmbio. Este seu poder permitiu-lhes tomar parte na liderança da cidade por grande parte do século XV.

A cidade, uma república oligárquica (um governo das elites minoritárias, as famílias burguesas, neste caso), tinha um ambiente dinâmico e estável e era o grande foco cultural da Europa, onde artistas e intelectuais se concentravam, como Ficino, com quem Lorenzo estudou, na Academia Platónica que o avô Cosimo Medici.

Nesta atmosfera, Lorenzo cresceu e desenvolveu-se como um homem vivo e curioso, culto, eclético, sensível, sofisticado. Quando governou Florença, fê-lo sabiamente, tanto na dimensão política, como cultural – reuniu o apoio dos nobres da cidade, impô-la sobre outros governantes e garantiu a sua prosperidade; atraiu poetas e artífices e criativos, fundou tipografias, escolas e bibliotecas, coleccionou livros, obras de arte, estudou os clássicos e promoveu a arquitectura moderna ordenada, animou a cidade com festas e concursos artísticos.

Ele próprio foi autor de obras de literatura - poesia, drama, prosa, cântico religioso.

Lorenzo foi humanista e cosmopolita, promotor de cultura, protector de criadores, um governante firme que elevou Florença ao estatuto de capital artística do seu tempo, marcando-a definitivamente, quer pela projecção que teve nessa época, quer pelas próprias obras que Lorenzo fez e encomendou, todo o esforço arquitectónico e artístico que foi empreendido só podiam advir de um forte personalidade dedicada ao espírito de renovação da Renascença.


Pintura Gótica

No domínio da pintura, sobressai o vitral, vidros coloridos unidos por armações de chumbo. Embora antigo, o vitral desenvolve-se consideravelmente, e isso liga-se à possibilidade (trazida pelo estilo gótico) de rasgar amplas janelas nas paredes dos edifícios. A luz era considerada uma manifestação divina, razão pela qual as representações projectadas no interior dos edifícios através dos vitrais produziam uma forte impressão mística. As figuras e cenas mais recriadas nos vitrais diziam respeito a temas sacros, ou por vezes algumas actividades oficiosas extra-religiosas. As tonalidades mais utilizadas nos vitrais eram o vermelho e o azul, branco, púrpura, amarelo e verde.

A iluminura consistia num tipo de representação pictórica profundamente colorida que visava ilustrar as diferentes passagens de um texto. Readquiriu importância no século XIII tardio, à medida que a actividade arquitectónica declinava e as encomendas de vitrais escasseavam. O renovado interesse por esta técnica está relacionado com a crescente valorização da escrita e da leitura.

A pintura dos retábulos marcou a última etapa do gótico. O final do séc. XIV é designado na pintura por Estilo Internacional ou “Estilo 1400″. Este, por sua vez, subdivide-se em duas grandes escolas, a italiana e a flamenga, que mantinham estreitas relações devido à grande actividade comercial inerente a ambas as regiões. As  características principais do estilo são as influências bizantinas (dourados e tons brilhantes), realismo dos rostos e velaturas, paisagens e espaços arquitectónicos, perspectiva, volumetria e expressão.

Quadros compostos por dois ou mais painéis eram chamados de dípticos, trípticos ou polípticos.


Arte Islâmica

A arte islâmica é a proveniente das nações de influência muçulmana. Está intimamente ligada à própria religião Islâmica, que tem 5 grandes fundamentos:

Monoteísmo; Alá é o Deus único, e Maomé seu profeta;

Oração diária feita cinco vezes, em comunidade ás sextas-feiras;

Esmola;

Jejum pelo Ramadão (mês de celebração da aparição do anjo Gabriel a Maomé);

Peregrinação a Meca.

Esta religião deriva das tradições judaico-cristãs: foi criada por Maomé, nascido a 570 d.C., que casou rico e levou uma vida abastada. Aos 40 anos, o anjo Gabriel surge-lhe, e aí torna-se a voz de Deus. A sua Hégira da cidade natal, Meca, começa a 622, e esse é o início do calendário muçulmano. No exílio, em Medina, ergue um exército e conquista Meca. Morre em Jerusalém, em 632, onde é elevado aos céus, sob o Monte de Salomão, onde agora está a Mesquita Al-Aqsa, a Cúpula do Rochedo.

4 califas sucederam Maomé na governação política e espiritual do império muçulmano que se expandia progressivamente; até que os Omíadas tomaram o poder e tornaram a sua passagem hereditária. Depois, os Abássidas tomam o poder, e depois o império fragmenta-se definitivamente em múltiplos califados e emirados independentes.

Caracterizam a arte islâmica na generalidade:

Diversidade e Unidade – assimilação cultural das múltiplas conquistas mescladas no único império muçulmano

Aniconismo – proibição religiosa de idolatria; a fidelidade religiosa a que se presta a Arte

Geometria – apreciada como forma decorativa, conhecida até por “arabescos”

Exuberância – associada à minúcia, ao requinte das mais áureas manifestações desta Arte

Arquitectura e Artes Aplicadas – os principais focos da Arte Islâmica; cinzelamento, azulejaria, cerâmica, tapeçaria, caligrafia e iluminura

A arte muçulmana queda-se muito à dimensão do Homem, não perseguindo o divino, como já o faz a arte cristã; acha o vazio hórrido, e mantém uma grande preocupação com a harmonia do espaço envolvente das obras, com especial carinho por jardins, lembretes das maravilhas do Éden.

As maiores cidades muçulmanas foram Damasco, Cairo, Samarcanda, Bagdade, Samarra, Istanbul, Granada, Córdova. Na Península Ibérica, onde uma peculiar convivência muçulmana e cristã se deu, nasce uma arte singular, a arte moçárabe, que culmina de ambas as influências, unidas no território cristão ocupado por muçulmanos.

Elementos estruturantes da Arquitectura Muçulmana:

Arcos em ferradura/ultrapassado; trilobado ou polilobado (partido em vários arcos no próprio arco); rebaixado; com ou sem alfiz (ornamento rectangular); entrecruzado; com ou sem muqarnas (estalactites artificiais

Abóbadas, simples ou de pendentes

Cúpulas, sobre tambor ou pendentes

Colunas de sustentação com fustes lisos e capitéis na tradição romana, com rendilhados florais estilizados

Uma Cidade Muçulmana:

Medina – a praça principal; Madrasa – escola religiosa; Palácio; Soukh – mercado; Mesquita – templo; Caravansar – pousada de mercadores; Banhos/Termas; Alcaçaria – lugar administrativo

A arquitectura muçulmana preferiu o tijolo cru, o gesso, o mármore, a madeira, o azulejo e o mosaico. É dada importância, religiosa, às mesquitas, aos túmulos e aos ribat, conventos fortificados da guerra santa.

A casa muçulmana é, à imagem da grega, centrípeta.

A arquitectura divide-se em vários regionalismos: persa, mughal (indiana), otomana, mourisca, fatímida, africana e chinesa (sido-islâmica).

As Artes Ornamentais usam do azulejo, da pintura, da madeira, do gesso e do mármore, criando decorações policromadas e geométricas.

A Escultura tem as técnicas de buril (gravura), relevo, moldagem, damasquiano (sulco aberto e preenchido com fio de ouro), presente em frisos corridos e objectos escultóricos.

Principais ramificações espacio-temporais da Arte Islâmica:

Na Península Ibérica, a fragmentação do califado de Córdova foi violenta, e deu lugar aos reinos dos taifas. nestes reinos, o uso do tijolo, do gesso e da argamassa foram mais comuns, em detrimento da pedra e mármore. A decoração abundou, sob a forma de florais estilizados e motivos geométricos e epigráficos. O seu auge foram os palácios e as alcáçovas.

A Arte dos Almorávidas, do Norte de África, dividiu-se em dois períodos: um primeiro, de gravidade austera decorativa, de que resulta uma nova mesquita totalmente caiada e sem minarete; em segundo, uma forma decorativa que fará a tradição hispânico-muçulmana.

A Arte dos Almóadas almeja purismo de formas, simplicidade. Tornam-se comuns as figuras geométricas interlaçadas e depois intercaladas com grandes intervalos. Esta Arte sobrevaloriza o minarete.

A Arte Nazari, ou Nasride, divide-se em duas grandes vertentes de arquitectura: a funcionalidade, que usou materiais perecíveis (argamassas e tijolos para banhos, alcáçovas e muralhas); e o requinte, praticado em palácios onde se investiu mármores ricamente adornados e vastas superfícies de gesso cinzelado em motivos vegetalistas, geométricos e epigráficos.

A Arte Mudéjar era uma reinterpretação por artífices árabes ou mouros encomendada por patronos cristãos, em que se procurava a estética tipicamente muçulmana.

A filosofia muçulmana é a de uma abstraccionista, niilista, de concepções vazias de imagem.


Casamento de Leonor e Frederico

O Casamento imperial deu-se a 13 de Outubro de 1451, entre Frederico III do Sacro-Império Romano e D. Leonor de Portugal, irmã do rei D. Afonso V, D. Fernando, seu irmão, e sobrinha do Infante D. Henrique.

Nicolau Lanckman de Valckenstein foi capelão imperial e embaixador alemão, e na sua qualidade de elevado dignitário, viajou bastante pela Europa, e fez vários apontamentos que hoje constituem importantes fontes históricas. Entre os seus cadernos, está uma descrição sua do casamento imperial e das celebrações, que se prolongaram por vários dias.

Do seu relato podem-se empreender inúmeras informações históricas, de natureza social, política,  religiosa, gastronómica, cultural; a indumentária, os costumes, artes…

Este evento em específico foi organizado em três estágios: a celebração religiosa e pagã do casamento por Lisboa, com várias celebrações – o ritual presidido na Sé pelo Arcebispo, a chegada dos selvagens dominados pelos portugueses, as justas e os banquetes; seis naus com os noivos, suas comitivas e um dote de sessenta mil florins partem para Roma, para a coroação de Frederico como legítimo imperador cristão; a comitiva parte para a corte alemã. O facto de uma potência como o Sacro Império Romano casar com uma princesa de Portugal mostra o prestígio que o reino português atingira neste tempo, que é o dos Descobrimentos, quando a sua era a máxima glória e poder e influência política, que culminavam numa quase total supremacia nessa altura de Portugal sobre a Europa – prepotência que era exibida orgulhosamente nas demonstrações de exotismo, riqueza e domínio.


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