Escriba de Broalhos cronicando cenas no belogue sobre cultura audiovisual e artística

“Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett

Almeida Garrett foi uma personalidade portuguesa romântica, do século XIX. Foi político, escritor, e o introdutor do movimento do Romantismo em Portugal. Neste tempo, caem de vez os governos déspotas, dando lugar ao liberalismo político, em sociedades inconformistas e culturas com repúdio das limitações – enfatizam-se o lirismo, o nacionalismo utópico, o sonho exacerbado, o escapismo; depois, o pessimismo, o naturalismo, a religiosidade; e por fim, o realismo e a ironia enfatizada.

Uma dessas correntes românticas, o patriotismo utópico, ligava os românticos às suas origens nacionais tradicionais. Esse é o caso da obra “Frei Luís de Sousa“, passada no período da perda da independência portuguesa para os reis espanhóis após o desastre da Batalha de Alcácer Quibir, em que o rei D. Sebastião se perdeu, sem deixar herdeiro ao trono – é nesse período de domínio estrangeiro, de união ibérica, que a peça dramática “Frei Luís de Sousa” se passa.

O primeiro Acto é passado no palácio de Manuel Coutinho, em Almada, no quarto luxuoso da viúva Madalena, jovem e inexperiente, lendo “Os Lusíadas” sozinha, refugiada temporariamente do luto, do medo, da solidão constantes. Esta reflecte sozinha até que vem até ela Telmo, o aio do seu primeiro marido, João, desaparecido em Alcácer Quibir. Só depois de sete anos do desaparecimento do marido é que Madalena voltou a casar. Desposou Manuel Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem teve uma filha, Maria, com treze anos pela altura da peça. Maria é doente e frágil, deixada a ler protegida por Telmo, que a criou desde pequena. Quando Manuel chega ao palácio de Lisboa, chega também a nova de que os governadores arranjados por Madrid para Portugal estão a chegar – pretendem hospedar-se no palácio de Manuel até os surtos de peste cessarem. Num acesso de exacerbado patriotismo, Manuel leva todas as pessoas e queima a própria residência.

O segundo Acto é passado na residência do primeiro marido de Madalena, para onde a família foge em busca de abrigo. Telmo, forçado em juramento a não falar mais de João de Portugal, seu aio antigo, mente quando Maria aponta para um retrato do cavaleiro. Frei Jorge, irmão de Manuel, conseguiu um perdão do arcebispo para a afronta de Manuel para com os governadores. Madalena está muito inquieta, sentindo a sombra do marido sob aquele tecto. Pouco depois, surge um estranho romeiro, que afirma saber de novas de João de Portugal, que este está vivo. A desgraça abate-se sob a família de Madalena, que é agora uma adúltera com uma filha bastarda e um amante desonrado.

No terceiro Acto, passado na capela do palácio de João de Portugal, Maria adoeceu bastante. O romeiro revela ser o próprio João de Portugal, mas apenas ao seu servo Telmo, e ordena-lhe que o desacredite, para tentar evitar a desgraça de Madalena, Maria e Manuel. João vai partir de vez, mas Manuel e Madalena já se preparam para receber os votos, depois de informarem Maria. Quando estão prestes a receber os hábitos religiosos, Maria interrompe a cerimónia para tentar desesperadamente que se esqueça a verdade. Por fim, sem forças, cai morta em palco, ao jeito tipicamente romântico.

Toda a peça se enche de presságios, alusões, num grande historicismo de Garrett, e a morte de Maria, o sentimentalismo de Madalena, o patriotismo de Manuel – isto é o Romantismo traduzido na construção das personagens e da trama narrativa da peça.

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